Muitos são os fatores que contribuem para que a cerveja brasileira tenha tantas confusões, informações incorretas, mitos e desinformação. Em uma pequena série (Mitos e confusões) vou tentar elucidar alguns que considero os principais mitos e dúvidas relacionada a cerveja.
Nesse primeiro post vou abordar uma dúvida muito comum do público em geral e muitas pessoas ja me perguntaram:
Qual a diferença entre cerveja e chopp?
NENHUMA, só no Brasil existe essa diferenciação. O processo de produção e os ingredientes são os mesmos. A confusão começou como uma herança dos imigrantes alemães que pediam um chopp no balcão do bar. A descrição correta é Schopp e é uma medida alemã que corresponde a 300ml, ou seja, ao pedir um chopp o alemão estava pedindo um copo de cerveja de 300ml servida do barril. Se você for na Alemanha e pedir um chopp o garçom vai ficar olhando e vai perguntar de qual cerveja.
Com o tempo não só os imigrantes alemães, mas todas pessoas pediam chopp quando queriam tomar uma cerveja direto do barril. Então o governo através do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) criou uma regra:
A cerveja em barril, não pasteurizada seria chamada de chopp, já quando engarrafada (ou lata), que passa pelo processo de pasteurização, seria chamada de cerveja.
O processo de Pasteurização consiste em aquecer as garrafas e "matar" as leveduras responsáveis pela fermentação e o CO² deixando assim a cerveja biologicamente estável, podendo ficar em temperatura ambiente, nas gandulas dos supermercados e com um prazo de validade maior.
A cerveja engarrafada ou em barril que não passa pelo processo de pasteurização precisa ficar em ambiente refrigerado. Em temperaturas baixas as leveduras presentes na garrafa entram em estado de dormência. Se ficarem em temperatura ambiente e ainda existir "alimento" para essas leveduras elas continuarão trabalhando e aumentando a pressão na garrafa até que a mesma exploda ou a cerveja fique com uma carbonatação excessiva.
A diferença então seria a pasteurização?
Seria, mas não é.
Confuso? A confusão fica melhor ainda agora que as grandes cervejarias fazem pasteurização até nos barris, então a diferença já não existe mais.
Para tornar a coisa mais divertida é comum ver cervejarias vendendo chopp em garrafa, ainda mais cara do que sua versão em cerveja pasteurizada.
Vemos garrafas que no rótulo diz "não pasteurizadas" mas estão em temperatura ambiente em prateleiras dos supermercados e lojas especializadas.
Podemos ver a da palavra Chopp no rótulo de muitas cervejas engarrafadas como por exemplo na garrafa da cerveja Brahma. Puro marketing.
Como eu disse acima, essa diferenciação só ocorre no Brasil, em outros países se especifica como você quer a sua cerveja. No barril (por exemplo Draft Beer nos EUA ou Vom Fass na Alemanha ) ou em garrafa (Bottle Beer ou Bierflaschen).
Mas alguém pode dizer: "mas a cerveja no barril é melhor". Sim, realmente é muito melhor. É melhor o sabor, o aroma e até a aparência. Geralmente é uma cerveja mais fresca, da uma sensação de ser mais leve e fácil de tomar. A pasteurização mata as leveduras em suspensão na cerveja e mata também parte do sabor e aroma.
Como devemos chamar?
Muita coisa esta mudando no cenário cervejeiro do Brasil, recentemente o MAPA reuniu representantes de grandes cervejarias, micro cervejarias, cervejeiros caseiros e outros especialistas para definir uma revisão dos Padrões de Identidade e Qualidade das cervejas no Brasil. Com tanta coisa que precisa mudar, acredito que essa nomenclatura nem precisa entrar no texto, mas eu considero errado chamar de chopp a cerveja servida em barril então eu chamo de cerveja na pressão. Acredito que seja o termo que melhor se adapte a nossa realidade.
Alguns eventos e algumas micro cervejarias tem a consciência de mostrar para os consumidores que essa diferença, na verdade, não existe.
Como exemplo cito o Festival da Cerveja Gaúcha que foi um grande sucesso de público e cervejas com a presença das melhores micro cervejarias do Rio Grande do Sul. Em todas as mídias utilizadas para a divulgação do evento deixavam claro que seriam mais de "90 cervejas em barril". O comercial que rolou na TV você pode assistir clicando aqui.
O mais importante de tudo é sabermos que cerveja é cerveja. Seja ela enlatada, engarrafada ou embarrilada. Que seja boa e que a fonte nunca seque.
No próximo Mitos e confusões vou estar falando sobre o mito que gira em torno da água na produção de cerveja. Até breve.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
Escolas cervejeiras
Quando vamos falar nas origens das cervejas de qualidade obrigatoriamente precisamos passar pelas principais "escolas cervejeiras", que são na verdade países que desenvolveram características específicas em suas cervejas. Essas características vão de variedades de insumos locais (especiarias, frutas, variedades locais de lúpulos, leveduras) e até mesmo eventos e Lei que define os ingredientes.
Hoje podemos destacar 4 principais escolas cervejeiras:
A escola Alemã, onde através da Lei da Pureza de 1516 (Reinheitsgebot) ficou determinado que só se poderia produzir cerveja com 3 ingredientes (água, malte e lúpulo) na época ainda não se dominava o processo de fermentação, posteriormente foi incluído a Levedura como ingrediente permitido.
Vigente até os dias de hoje, apenas 16 anos mais nova que o descobrimento do Brasil, a Lei de Pureza alemã constitui um dos mais antigos decretos alimentares da Europa.
Essa talvez seja a escola mais seguida pelas micro cervejarias artesanais, é fácil encontrar cervejas que estampam com orgulho no rótulo "Produzida de acordo com a Lei de Pureza da Alemanha". O que nem sempre é sinônimo de qualidade, mas a chance da cerveja ser ruim é muito pequena.
Quando algum amigo que esta querendo conhecer cerveja além das comerciais e me pergunta quais comprar eu sempre recomendo começar por alguma puro malte, que siga a Lei de Pureza.
Por ser aceito apenas os 4 ingredientes básicos na produção, é uma escola muito rígida. Os alemães tiveram que desenvolver inúmeras técnicas e muita pesquisa em cima da cerveja, insumos tecnologia nos equipamentos para fazer cervejas fantásticas com diferentes variedades, sabores, aromas, cores e características com apenas os quatro ingredientes permitidos.
Uma característica muito legal da Alemanha é que cada cidade tem sua cervejaria, por menor que seja, sempre tem uma cervejaria local, isso quando não é mais que uma e até dezenas. É um povo defende e apoia as cervejarias locais, entende, gostam e consomem muita cerveja, celebram a cerveja diariamente nos biergartens e a maior festa cervejeira do mundo é alemã, a Oktoberfest.
Se fizer uma pesquisa no Google de imagens para a palavra "Alemão" aparece o alemão de traje típico tomando cerveja.
Podemos citar como clássicos dessa escola os estilos German Pils, Bohemia Pils, Helles, Weizen, Kölsch
A Escola Inglesa se caracteriza por ser muito difundido as cervejas de Alta Fermentação (Ale), são cervejas mais complexas, mais amargas, secas e costumam ser menos carbonatadas e bem mais alcoólicas.
A escola é tão antiga quanto a alemã, porém passou por grandes mudanças. Antes do século VX as cervejas eram doce, forte e muito alcoólicas, uma herança do hidromel, que era a bebida mais popular nas Ilhas Britânicas na idade média e passaram a tomar cerveja. A partir do século XV vem a segunda grande mudança: Passaram a utilizar o lúpulo nas cervejas, que deixaram de ser doce e passam a ser cada vez mais amargas.
No século XVI começa o desenvolvimento de colonias inglesas pelo mundo, a cerveja era levada em navios e precisava resistir por longo tempo em barris nas viagens, num tempo onde não havia refrigeração. A solução era colocar grande quantidade de lúpulo na cerveja, que por ser um conservante natural garantia a qualidade da bebida durante as longas cruzadas marítimas.
Oficiais do Exército Britânico que residiam na Índia durante o período colonial eram abastecidos com essas cervejas, assim nascia o estilo India Pale Ale.
Na segunda metade do século XX as grandes cervejarias e suas Lagers começaram a dominar o mercado com cerveja barata. Pequenas cervejarias começaram a fechar e até estilos tradicionais estavam desaparecendo. Surge então um movimento de consumidores, liderado por 4 amigos que, revoltados com a falta de qualidade das cervejas criam o Campaing for Real Ale CAMRA (Campanha pela Ale de verdade). Um movimento que rapidamente conseguiu milhares de adeptos, com muita pressão politica, boicote a cervejarias e pubs que haviam abandonado as Ale tradicionais e através de pressão conseguiram do governo incentivos fiscais aos produtores artesanais e conseguiram mudar o cenário cervejeiro.
O CAMRA é considerado o movimento de consumidores mais bem sucedido na Europa e hoje conta com mais de 150.000 membros em todo o mundo. Fomentam a cultura cervejeira através de eventos, concursos cervejeiros, certificação para pubs e cervejarias, dentre outras ações.
Como estilos da escola podemos citar a Stout, Porter, India Pale Ale, Barley Wine, Brown Ale.
A Escola Belga, talvez seja o berço dos cervejeiros mais criativos.
Considerada por muitos o paraíso das cervejas.
São dezenas de estilos próprios e a utilização de inúmeras especiarias na cerveja, como por exemplo o coentro e cascas de laranja na WitBier. Utilizam muita fruta também, especialmente nas cervejas de fermentação espontânea, onde a cerveja é fermenta por leveduras selvagens em tanques abertos, as chamadas Lambic.
As Lambics merecem uma atenção especial, em qualquer parte do mundo se você for visitar uma cervejaria vai encontrar um ambiente extremamente limpo e controlado, com tanques de inox que facilitam a a higienização e controle anti-bacteriano. Já na Bélgica, nas cervejarias que produzem as cervejas Lambics, ficam com as portas e janelas escancaradas, o ambiente é úmido, com mofo nas paredes, insetos, teias de aranha e a cerveja em tanques abertos, só esperando as leveduras selvagens fermentarem o mosto. É uma cerveja selvagem, com muita acidez, um toque amadeirado e vínico. Ganham suavidade quando adicionam frutas como cereja (Krieg) ou framboesa (Framboise) ou ganham características e eferverscência que remetem ao espumante quando recebem a mistura de Lambics com diferentes idades (Gueuze).
É preciso destacar também os mosteiros da ordem trapista onde os monges produzem verdadeiras obras primas como as Tripel, Dubbel, e Quadruppel.
Por fim chegamos na Escola Americana que até pouco tempo era caracterizada pela produção de larga escala, onde as grandes indústrias dominavam, compravam ou quebravam as menores. É a produção da cerveja barata, leve, utilizando milho e arroz para substituir o malte. O estilo é American Light Lager, essa cerveja foi exportada para todo o mundo e foi o estilo adotado no Brasil. Não, a cerveja que o brasileiro toma não é Pilsen, é American Light Lager. Essa foi a pior contribuição do país para o mundo da cerveja.
Mas tudo começou a mudar em 1978 quando o Presidente Jimmi Carter sancionou uma lei que derrubava o veto de produção caseira de cervejas. Nascia assim um movimento cervejeiro que iria revolucionar o país, o movimento batizado de Craft Beer que rompeu todos os paradigmas cervejeiros. Reinventaram e inventam estilos, não se prendem a características do estilo. São ousados e criativos, não existe regras. Mas certamente o que mais caracteriza a Escola Americana são as cervejas extremas, carregadas de lúpulo.
E as American Light Lager?
Bem elas continuam por aí, mas vem amargando uma queda inédita no consumo.
A Budweiser que sempre foi a queridinha dos americanos até década de 90, onde aparecia discretamente e gratuitamente em grandes produções de Hollyhood, chegando a ser considerada patrimônio e simbolo da cultura capitalista dos americanos, foi recentemente ultrapassada em volume pelas cervejas artesanais.
Se podemos classificar os cervejeiros da escola Belga de criativos, o que dizer dos americanos? São criativos, ousados e obstinados por cerveja.
Alguns defendem que não existe uma escola americana, que na verdade eles "apenas" reinventaram estilos. Eu discordo pois eles criaram cervejas com características únicas e o grande trunfo foi desenvolver variedades de lúpulos em solo americano com características bem particulares, extremamente aromáticos e amargos. Eu diria que é o terroir das cervejas americanas.
É fácil identificar uma cerveja com lúpulos americanos.
São vários estilos criados e recriados pelos americanos, mas experimente e se surpreenda com uma Black India Pale Ale (Black IPA) ou se encante com uma American India Pale Ale (APA).
Tudo isso era uma introdução para falar sobre o Estilo Brasileiro de Cerveja, mas o post acabou ficando longo e vamos deixar para outra hora. Vou ir tomar uma cerveja agora, Ein Prosit,
Hoje podemos destacar 4 principais escolas cervejeiras:
A escola Alemã, onde através da Lei da Pureza de 1516 (Reinheitsgebot) ficou determinado que só se poderia produzir cerveja com 3 ingredientes (água, malte e lúpulo) na época ainda não se dominava o processo de fermentação, posteriormente foi incluído a Levedura como ingrediente permitido.
Vigente até os dias de hoje, apenas 16 anos mais nova que o descobrimento do Brasil, a Lei de Pureza alemã constitui um dos mais antigos decretos alimentares da Europa.
Essa talvez seja a escola mais seguida pelas micro cervejarias artesanais, é fácil encontrar cervejas que estampam com orgulho no rótulo "Produzida de acordo com a Lei de Pureza da Alemanha". O que nem sempre é sinônimo de qualidade, mas a chance da cerveja ser ruim é muito pequena.
Quando algum amigo que esta querendo conhecer cerveja além das comerciais e me pergunta quais comprar eu sempre recomendo começar por alguma puro malte, que siga a Lei de Pureza.
Por ser aceito apenas os 4 ingredientes básicos na produção, é uma escola muito rígida. Os alemães tiveram que desenvolver inúmeras técnicas e muita pesquisa em cima da cerveja, insumos tecnologia nos equipamentos para fazer cervejas fantásticas com diferentes variedades, sabores, aromas, cores e características com apenas os quatro ingredientes permitidos.
Uma característica muito legal da Alemanha é que cada cidade tem sua cervejaria, por menor que seja, sempre tem uma cervejaria local, isso quando não é mais que uma e até dezenas. É um povo defende e apoia as cervejarias locais, entende, gostam e consomem muita cerveja, celebram a cerveja diariamente nos biergartens e a maior festa cervejeira do mundo é alemã, a Oktoberfest.
Se fizer uma pesquisa no Google de imagens para a palavra "Alemão" aparece o alemão de traje típico tomando cerveja.
Podemos citar como clássicos dessa escola os estilos German Pils, Bohemia Pils, Helles, Weizen, Kölsch
A Escola Inglesa se caracteriza por ser muito difundido as cervejas de Alta Fermentação (Ale), são cervejas mais complexas, mais amargas, secas e costumam ser menos carbonatadas e bem mais alcoólicas.
A escola é tão antiga quanto a alemã, porém passou por grandes mudanças. Antes do século VX as cervejas eram doce, forte e muito alcoólicas, uma herança do hidromel, que era a bebida mais popular nas Ilhas Britânicas na idade média e passaram a tomar cerveja. A partir do século XV vem a segunda grande mudança: Passaram a utilizar o lúpulo nas cervejas, que deixaram de ser doce e passam a ser cada vez mais amargas.
No século XVI começa o desenvolvimento de colonias inglesas pelo mundo, a cerveja era levada em navios e precisava resistir por longo tempo em barris nas viagens, num tempo onde não havia refrigeração. A solução era colocar grande quantidade de lúpulo na cerveja, que por ser um conservante natural garantia a qualidade da bebida durante as longas cruzadas marítimas.
Oficiais do Exército Britânico que residiam na Índia durante o período colonial eram abastecidos com essas cervejas, assim nascia o estilo India Pale Ale.
Na segunda metade do século XX as grandes cervejarias e suas Lagers começaram a dominar o mercado com cerveja barata. Pequenas cervejarias começaram a fechar e até estilos tradicionais estavam desaparecendo. Surge então um movimento de consumidores, liderado por 4 amigos que, revoltados com a falta de qualidade das cervejas criam o Campaing for Real Ale CAMRA (Campanha pela Ale de verdade). Um movimento que rapidamente conseguiu milhares de adeptos, com muita pressão politica, boicote a cervejarias e pubs que haviam abandonado as Ale tradicionais e através de pressão conseguiram do governo incentivos fiscais aos produtores artesanais e conseguiram mudar o cenário cervejeiro.
O CAMRA é considerado o movimento de consumidores mais bem sucedido na Europa e hoje conta com mais de 150.000 membros em todo o mundo. Fomentam a cultura cervejeira através de eventos, concursos cervejeiros, certificação para pubs e cervejarias, dentre outras ações.
Como estilos da escola podemos citar a Stout, Porter, India Pale Ale, Barley Wine, Brown Ale.
A Escola Belga, talvez seja o berço dos cervejeiros mais criativos.
Considerada por muitos o paraíso das cervejas.
São dezenas de estilos próprios e a utilização de inúmeras especiarias na cerveja, como por exemplo o coentro e cascas de laranja na WitBier. Utilizam muita fruta também, especialmente nas cervejas de fermentação espontânea, onde a cerveja é fermenta por leveduras selvagens em tanques abertos, as chamadas Lambic.
As Lambics merecem uma atenção especial, em qualquer parte do mundo se você for visitar uma cervejaria vai encontrar um ambiente extremamente limpo e controlado, com tanques de inox que facilitam a a higienização e controle anti-bacteriano. Já na Bélgica, nas cervejarias que produzem as cervejas Lambics, ficam com as portas e janelas escancaradas, o ambiente é úmido, com mofo nas paredes, insetos, teias de aranha e a cerveja em tanques abertos, só esperando as leveduras selvagens fermentarem o mosto. É uma cerveja selvagem, com muita acidez, um toque amadeirado e vínico. Ganham suavidade quando adicionam frutas como cereja (Krieg) ou framboesa (Framboise) ou ganham características e eferverscência que remetem ao espumante quando recebem a mistura de Lambics com diferentes idades (Gueuze).
É preciso destacar também os mosteiros da ordem trapista onde os monges produzem verdadeiras obras primas como as Tripel, Dubbel, e Quadruppel.
Por fim chegamos na Escola Americana que até pouco tempo era caracterizada pela produção de larga escala, onde as grandes indústrias dominavam, compravam ou quebravam as menores. É a produção da cerveja barata, leve, utilizando milho e arroz para substituir o malte. O estilo é American Light Lager, essa cerveja foi exportada para todo o mundo e foi o estilo adotado no Brasil. Não, a cerveja que o brasileiro toma não é Pilsen, é American Light Lager. Essa foi a pior contribuição do país para o mundo da cerveja.
Mas tudo começou a mudar em 1978 quando o Presidente Jimmi Carter sancionou uma lei que derrubava o veto de produção caseira de cervejas. Nascia assim um movimento cervejeiro que iria revolucionar o país, o movimento batizado de Craft Beer que rompeu todos os paradigmas cervejeiros. Reinventaram e inventam estilos, não se prendem a características do estilo. São ousados e criativos, não existe regras. Mas certamente o que mais caracteriza a Escola Americana são as cervejas extremas, carregadas de lúpulo.
E as American Light Lager?
Bem elas continuam por aí, mas vem amargando uma queda inédita no consumo.
A Budweiser que sempre foi a queridinha dos americanos até década de 90, onde aparecia discretamente e gratuitamente em grandes produções de Hollyhood, chegando a ser considerada patrimônio e simbolo da cultura capitalista dos americanos, foi recentemente ultrapassada em volume pelas cervejas artesanais.
Se podemos classificar os cervejeiros da escola Belga de criativos, o que dizer dos americanos? São criativos, ousados e obstinados por cerveja.
Alguns defendem que não existe uma escola americana, que na verdade eles "apenas" reinventaram estilos. Eu discordo pois eles criaram cervejas com características únicas e o grande trunfo foi desenvolver variedades de lúpulos em solo americano com características bem particulares, extremamente aromáticos e amargos. Eu diria que é o terroir das cervejas americanas.
É fácil identificar uma cerveja com lúpulos americanos.
São vários estilos criados e recriados pelos americanos, mas experimente e se surpreenda com uma Black India Pale Ale (Black IPA) ou se encante com uma American India Pale Ale (APA).
Tudo isso era uma introdução para falar sobre o Estilo Brasileiro de Cerveja, mas o post acabou ficando longo e vamos deixar para outra hora. Vou ir tomar uma cerveja agora, Ein Prosit,
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Confraternização CerVale RioPardo
Depois de alguns dias sem postagens no Blog em virtude das festas de final de ano e férias chegou a hora de retomar.
Primeiramente quero desejar aos leitores desse humilde Blog um feliz 2015, cheio de saúde, realizações e claro, muita variedade e qualidade nas cervejas para o ano novo.
O ano começou bem, com uma brassagem de uma cerveja nova, uma receita que criei com técnicas bem diferenciadas e com algumas particularidades. Mais alguns dias vai para o tanque de maturação e assim que estiver pronta falo sobre ela.
Antes dos novas postagens de 2015 preciso falar sobre a confraternização de final de ano da CerVale RioPardo.
A CerVale RioPardo é uma associação sem fins lucrativos, filiada a ACerva Gaúcha, que nasceu para congregar e integrar os cervejeiros artesanais da região e divulgar a cultura cervejeira.
Inúmeras foram as ações no decorrer do ano de 2014, como excursão, visita a cervejarias, palestra, reuniões, brassagens coletivas, degustação de cervejas, participação de eventos e a realização do encontro inter-regional de cervejeiros.
Para comemorar todas as realizações e fechar com chave de ouro fizemos a nossa confraternização de final de ano dia 21/12/2014 na propriedade da família Eidt no interior de Venâncio Aires.
A programação era degustar cerveja dos associados, assar um costelão e fazer um workshop de flavors e off flavors na cerveja.
O evento estava agendado a meses e conforme se aproximava eu ficava cada vez mais apreensivo. Uma forte onda de calor estava sobre o RS, a meteorologia e os canais de notícia estavam prevento forte temporal para a data, queda de granizo, vento acima dos 100km/h e muita chuva.
Ao sair de Santa Cruz do Sul de manha cedo fomos brindados com um dia totalmente ensolarado e muito quente, prontamente esqueci da previsão do tempo.
Será que erraram tanto assim na previsão do tempo?
Workshop: Não basta fazer cerveja, é preciso dominar os processos, saber as variáveis e conhecer as cervejas.
Muitos são os aromas e sabores que procuramos ter nas nossas cervejas, os chamados flavors. Em contra partida muitos são os problemas que podem acontecer durante os processos e trazer sabores indesejados a cerveja, o que chamamos de off flavors.
Para o cervejeiro, conhecer os defeitos que podem acontecer na cerveja e saber como evita-los é fundamental. Porém essa não é uma tarefa fácil, requer dedicação, estudo e conhecimento.
Para desenvolver essa habilidade (creio que posso chamar assim), através da CerVale RioPardo conseguimos importar kits de flavors e off flavors direto da Flavoractiv.
O kit é constituído de cápsulas, que ao ser dissolvido em alguma cerveja neutra libera e simula esses aromas e sabores.
O kit professional é composto por 20 cápsulas e nessa primeira data fizemos a análise de 10.
É muito interessante como fica evidente as características de cada flavor ou off flavor quando a cápsula é dissolvida na cerveja.
Após afinarmos nossa capacidade de análise sensorial passamos a degustar as cervejas dos associados e como sempre as cervejas surpreenderam pela qualidade e variedades. Não lembro todas, mas teve Red Ale, Dunkelweisen, Kölsch, Weiss, Saison, Dry Stout, Pilsen, dentre outras.
Enquanto parte do grupo participava do workshop, outros ficaram responsáveis pelo churrasco, que ficou tão espetacular quanto as cervejas que estávamos tomando.
Costelão no ponto
Após o almoço e tomar algumas cervejas o desafio era atravessar a fita de Slackline que esticamos sobre a piscina.
Muitos tentaram, mas apenas o Eduardo Overbeck (dono da fita) e o Luciano Morsch (que também tem fita) conseguiram atravessar com sucesso, embora também caíram algumas vezes.
A brincadeira foi divertida e rendeu belas rizadas, mas pode deixar, no próximo vou propor algum desafio com bike, ai quero ver hehe.
Ao entardecer, cerveja quase acabando, era hora de voltar para Santa Cruz do Sul. Repentinamente um forte vento começou soprar, enormes pingos de chuva começavam a bater no chão. Tivemos que organizar o que dava as pressas e de repente o céu desabou.
Pegamos um forte temporal na estrada, chegando em Santa Cruz era possível ver árvores e postes caídos, fios de alta tensão no chão, muito pontos de alagamento e muita destruição causada pelo temporal.
Ai lembrei de minha preocupação quanto a previsão do tempo, eles não erraram. Mas os deuses da cerveja cuidaram para que tivéssemos um dia fantástico de troca de idéias, conhecimento, confraternização e degustação de cervejas para só depois vir o anunciado temporal.
Quero agradecer a família Eidt que nos recebeu carinhosamente em sua bela propriedade. Impossível não se sentir em casa com uma família tão querida, muito obrigado!!
A CerVale RioPardo é feita por pessoas e pelo esforço de muitos, mas é preciso reconhecer que das inúmeras atividades desenvolvidas no decorrer do ano, grande parte do sucesso se deve ao nosso Mentor-mor Guga Eidt, que não mediu esforços para que a CerVale RioPardo sempre tivesse atividades e sempre esteve puxando o pessoal.
Infelizmente nem todos os associados puderam participar da confraternização, sentimos falta!!
O workshop terá mais turmas e outras datas.
Créditos das fotos para Luciano Morsch.
Para 2015 ja estabelecemos algumas diretrizes e um pré-calendário. Muitas atividades bacana estão por vir e sempre estarei compartilhando aqui, Ein Prosit und glückliches neues jahr.
Primeiramente quero desejar aos leitores desse humilde Blog um feliz 2015, cheio de saúde, realizações e claro, muita variedade e qualidade nas cervejas para o ano novo.
O ano começou bem, com uma brassagem de uma cerveja nova, uma receita que criei com técnicas bem diferenciadas e com algumas particularidades. Mais alguns dias vai para o tanque de maturação e assim que estiver pronta falo sobre ela.
Antes dos novas postagens de 2015 preciso falar sobre a confraternização de final de ano da CerVale RioPardo.
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| Recebidos em clima de Natal |
A CerVale RioPardo é uma associação sem fins lucrativos, filiada a ACerva Gaúcha, que nasceu para congregar e integrar os cervejeiros artesanais da região e divulgar a cultura cervejeira.
Inúmeras foram as ações no decorrer do ano de 2014, como excursão, visita a cervejarias, palestra, reuniões, brassagens coletivas, degustação de cervejas, participação de eventos e a realização do encontro inter-regional de cervejeiros.
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| Pinheiro cervejeiro |
A programação era degustar cerveja dos associados, assar um costelão e fazer um workshop de flavors e off flavors na cerveja.
O evento estava agendado a meses e conforme se aproximava eu ficava cada vez mais apreensivo. Uma forte onda de calor estava sobre o RS, a meteorologia e os canais de notícia estavam prevento forte temporal para a data, queda de granizo, vento acima dos 100km/h e muita chuva.
Ao sair de Santa Cruz do Sul de manha cedo fomos brindados com um dia totalmente ensolarado e muito quente, prontamente esqueci da previsão do tempo.
Será que erraram tanto assim na previsão do tempo?
Workshop: Não basta fazer cerveja, é preciso dominar os processos, saber as variáveis e conhecer as cervejas.
Muitos são os aromas e sabores que procuramos ter nas nossas cervejas, os chamados flavors. Em contra partida muitos são os problemas que podem acontecer durante os processos e trazer sabores indesejados a cerveja, o que chamamos de off flavors.
Para o cervejeiro, conhecer os defeitos que podem acontecer na cerveja e saber como evita-los é fundamental. Porém essa não é uma tarefa fácil, requer dedicação, estudo e conhecimento.
Para desenvolver essa habilidade (creio que posso chamar assim), através da CerVale RioPardo conseguimos importar kits de flavors e off flavors direto da Flavoractiv.
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| Análise de flavors |
O kit é constituído de cápsulas, que ao ser dissolvido em alguma cerveja neutra libera e simula esses aromas e sabores.
O kit professional é composto por 20 cápsulas e nessa primeira data fizemos a análise de 10.
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É muito interessante como fica evidente as características de cada flavor ou off flavor quando a cápsula é dissolvida na cerveja.
Após afinarmos nossa capacidade de análise sensorial passamos a degustar as cervejas dos associados e como sempre as cervejas surpreenderam pela qualidade e variedades. Não lembro todas, mas teve Red Ale, Dunkelweisen, Kölsch, Weiss, Saison, Dry Stout, Pilsen, dentre outras.
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| Franke Bier - Red Ale |
Enquanto parte do grupo participava do workshop, outros ficaram responsáveis pelo churrasco, que ficou tão espetacular quanto as cervejas que estávamos tomando.
Costelão no ponto
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| Fila para cair |
Após o almoço e tomar algumas cervejas o desafio era atravessar a fita de Slackline que esticamos sobre a piscina.
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| Ou tomou pouco e sabe mesmo hehe |
Muitos tentaram, mas apenas o Eduardo Overbeck (dono da fita) e o Luciano Morsch (que também tem fita) conseguiram atravessar com sucesso, embora também caíram algumas vezes.
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| Se não vai em pé... |
A brincadeira foi divertida e rendeu belas rizadas, mas pode deixar, no próximo vou propor algum desafio com bike, ai quero ver hehe.
Ao entardecer, cerveja quase acabando, era hora de voltar para Santa Cruz do Sul. Repentinamente um forte vento começou soprar, enormes pingos de chuva começavam a bater no chão. Tivemos que organizar o que dava as pressas e de repente o céu desabou.
Pegamos um forte temporal na estrada, chegando em Santa Cruz era possível ver árvores e postes caídos, fios de alta tensão no chão, muito pontos de alagamento e muita destruição causada pelo temporal.
Ai lembrei de minha preocupação quanto a previsão do tempo, eles não erraram. Mas os deuses da cerveja cuidaram para que tivéssemos um dia fantástico de troca de idéias, conhecimento, confraternização e degustação de cervejas para só depois vir o anunciado temporal.
Quero agradecer a família Eidt que nos recebeu carinhosamente em sua bela propriedade. Impossível não se sentir em casa com uma família tão querida, muito obrigado!!
A CerVale RioPardo é feita por pessoas e pelo esforço de muitos, mas é preciso reconhecer que das inúmeras atividades desenvolvidas no decorrer do ano, grande parte do sucesso se deve ao nosso Mentor-mor Guga Eidt, que não mediu esforços para que a CerVale RioPardo sempre tivesse atividades e sempre esteve puxando o pessoal.
Infelizmente nem todos os associados puderam participar da confraternização, sentimos falta!!
O workshop terá mais turmas e outras datas.
Créditos das fotos para Luciano Morsch.
Para 2015 ja estabelecemos algumas diretrizes e um pré-calendário. Muitas atividades bacana estão por vir e sempre estarei compartilhando aqui, Ein Prosit und glückliches neues jahr.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Comida e cerveja artesanal, uma harmonização nota 10
O último post aqui no blog foi sobre os O papel, o sucesso e os desafios da Cerveja Artesanal.
Esse questionamento surgiu para um amigo que esta fazendo um trabalho na cadeira de Engenharia de Alimentos no curso de Agronomia da UFRGS e pediu minha opinião.
Agora no novo post o universo acadêmico novamente pinta por aqui.
Dessa vez foi no Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) que a cerveja artesanal apareceu.
A aluno João Zwirtes Hamester apresentou sua criação culinária para a banca avaliadora de conclusão do curso.
O prato apresentado foi "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico".
Com características que o definem como um prato da cozinha contemporânea com um toque de regionalidade, que valoriza e utiliza ingredientes de produtores locais.
A carne utilizada na receita foi marinada por 24 horas com ervas e especiarias, o purê foi elaborado com a batata Beauregard, processada com Kässchimier, zestes de casca de laranja, sal e pimenta do reino preta.
O Kässchimier é uma coalhada de queijo muito comum em regiões colonizadas por imigrantes alemães, é muito utilizado como cobertura nas famosas cucas de Santa Cruz do Sul. No prato foi incorporado ao purê, conferindo sabor e textura.
O molho foi feito a partir de um caramelo de açúcar branco, manteiga e dentes de alho. Formando um molho brilhoso e bastante aromático.
A finalização ficou por conta de crocantes pele de porco fritas, broto de beterraba e funcho.
O prato enquadra-se perfeitamente no movimento Slow food, que na tradução livre podemos dizer que significa "comer devagar".
É um movimento que iniciou na Itália em 1986 com o objetivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente.
Defende uma maior lentidão no processo de produção e degustação dos alimentos, visando um aumento do prazer proporcionado pelos mesmos, num contraste com o fast-food.
O alimento precisa ser tão gostoso que merece ser saboreado com calma, fazendo de cada refeição uma pausa especial do dia. Que seja bom à saúde do consumidor e dos produtores, sem prejudicar o meio ambiente, nem os animais.
Que seja produzido com transparência e honestidade social e, de preferência, de produtores locais.
Talvez dentro desse conceito de Slow Food que o João teve a ideia de harmonizar seu prato com cerveja artesanal, afinal os movimentos defendem idéias semelhantes:
Os produtores de Cervejas Artesanais defendem um consumo responsável e consciente.
O consumir utilizando todos os sentidos, de um produto que prima pela qualidade, sem utilização de produtos químicos para acelerar processos ou preservar a cerveja.
Uma cerveja natural, feita por cervejeiros ou micro cervejarias, de forma artesanal (quase artística), com todos os cuidados e respeito que a bebida merece.
Outra possibilidade talvez tenha sido de oferecer uma experiência gastronômica completa para a banca, de um excelente prato harmonizado com uma excelente cerveja que o completasse.
O João postou no Grupo de Discussões da CerVale Rio Pardo no Facebook sua vontade de harmonizar o prato.
Achei muito legal a ideia por justamente a cerveja artesanal e a gastronomia andarem juntos.
Coisa que muitos chefs ainda não descobriram.
A cerveja oferecendo uma gama gigantesca de estilos, aromas e sabores que proporcionam não apenas um acompanhamento, mas uma verdadeira harmonização onde os dois elementos (o prato e a cerveja) se completam, que se unem para impressionar nossos sentidos, encher nossa alma e nos dar o verdadeiro prazer da boa comida e bebida.
Logo que li as características do prato pensei na harmonização com a Franke Bier - Red Ale por ser uma cerveja mais forte, mas com o equilíbrio entre o malte e o lúpulo combina com pratos robustos, carne de porco e certamente combinaria muito bem até com o Kässchmier.
Mas a cerveja ainda estava no tanque de maturação e não tinha disponível.
Pelas especiarias, pelo toque cítrico, por ter zestes de casca de laranja imaginei em harmonizar com a Franke Bier - WitBier, uma cerveja que leva cascas de laranja e coentro na receita. Porém o porco já não combinaria muito bem, pois apesar da cerveja ter até um toque apimentado é uma cerveja leve.
A única opção que eu ainda tinha disponível é a Franke Bier - Tertúlia (Kölsch) que combina com pratos mais leves, como pratos a base de peixe por exemplo.
Então esqueci as minhas cervejas e passei a imaginar qual estilo harmonizaria com o prato como um todo e quem poderia ter a cerveja.
Não demorou para me lembrar da Dunkelweizen dos amigos cervejeiros caseiros da OverBeer, Eduardo Overbeck (filho) e Jorge Overbeck (pai).
A Dunkelweizen é um estilo meio que coringa para harmonização com pratos, especialmente a base de carnes fortes.
Os Overbeck tinham a cerveja disponível e toparam o desafio.
E o resultado?
Bem eu não sei se ficou bom pois não tive a oportunidade de degustar esse prato e fazer essa harmonização, mas acho que o João ainda vai nos proporcionar esse prazer hehe.
O que sei é que ele foi APROVADO pela banca com nota 10!!!
Basta ver as fotos que ja temos certeza que ficou fantástico.
João, parabéns pelo prato, parabéns pela aprovação da banca e parabéns por se propor a fazer essa harmonização com uma cerveja artesanal feita aqui na cidade.
De forma geral a maioria dos profissionais da gastronomia precisam conhecer a cerveja artesanal, sua capacidade de harmonização, que vai de saladas até sobremesas e você já tem essa visão, que pode apostar: É uma tendência de um mercado que vai crescer muito.
Em breve farei um post falando um pouco mais sobre a harmonização de cervejas artesanais com pratos especiais, quem sabe até com a receita de "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico", harmonizada com Franke Bier Red Ale. (hehehe)
Abraço e um brinde aos prazeres das cervejas e comidas verdadeiras.
Esse questionamento surgiu para um amigo que esta fazendo um trabalho na cadeira de Engenharia de Alimentos no curso de Agronomia da UFRGS e pediu minha opinião.
Agora no novo post o universo acadêmico novamente pinta por aqui.
Dessa vez foi no Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) que a cerveja artesanal apareceu.
A aluno João Zwirtes Hamester apresentou sua criação culinária para a banca avaliadora de conclusão do curso.
O prato apresentado foi "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico".
Com características que o definem como um prato da cozinha contemporânea com um toque de regionalidade, que valoriza e utiliza ingredientes de produtores locais.
A carne utilizada na receita foi marinada por 24 horas com ervas e especiarias, o purê foi elaborado com a batata Beauregard, processada com Kässchimier, zestes de casca de laranja, sal e pimenta do reino preta.
O Kässchimier é uma coalhada de queijo muito comum em regiões colonizadas por imigrantes alemães, é muito utilizado como cobertura nas famosas cucas de Santa Cruz do Sul. No prato foi incorporado ao purê, conferindo sabor e textura.
A finalização ficou por conta de crocantes pele de porco fritas, broto de beterraba e funcho.
O prato enquadra-se perfeitamente no movimento Slow food, que na tradução livre podemos dizer que significa "comer devagar".
É um movimento que iniciou na Itália em 1986 com o objetivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente.
Defende uma maior lentidão no processo de produção e degustação dos alimentos, visando um aumento do prazer proporcionado pelos mesmos, num contraste com o fast-food.
O alimento precisa ser tão gostoso que merece ser saboreado com calma, fazendo de cada refeição uma pausa especial do dia. Que seja bom à saúde do consumidor e dos produtores, sem prejudicar o meio ambiente, nem os animais.
Que seja produzido com transparência e honestidade social e, de preferência, de produtores locais.
Talvez dentro desse conceito de Slow Food que o João teve a ideia de harmonizar seu prato com cerveja artesanal, afinal os movimentos defendem idéias semelhantes:
Os produtores de Cervejas Artesanais defendem um consumo responsável e consciente.
O consumir utilizando todos os sentidos, de um produto que prima pela qualidade, sem utilização de produtos químicos para acelerar processos ou preservar a cerveja.
Uma cerveja natural, feita por cervejeiros ou micro cervejarias, de forma artesanal (quase artística), com todos os cuidados e respeito que a bebida merece.
Outra possibilidade talvez tenha sido de oferecer uma experiência gastronômica completa para a banca, de um excelente prato harmonizado com uma excelente cerveja que o completasse.
O João postou no Grupo de Discussões da CerVale Rio Pardo no Facebook sua vontade de harmonizar o prato.
Achei muito legal a ideia por justamente a cerveja artesanal e a gastronomia andarem juntos.
Coisa que muitos chefs ainda não descobriram.
A cerveja oferecendo uma gama gigantesca de estilos, aromas e sabores que proporcionam não apenas um acompanhamento, mas uma verdadeira harmonização onde os dois elementos (o prato e a cerveja) se completam, que se unem para impressionar nossos sentidos, encher nossa alma e nos dar o verdadeiro prazer da boa comida e bebida.
Logo que li as características do prato pensei na harmonização com a Franke Bier - Red Ale por ser uma cerveja mais forte, mas com o equilíbrio entre o malte e o lúpulo combina com pratos robustos, carne de porco e certamente combinaria muito bem até com o Kässchmier.
Mas a cerveja ainda estava no tanque de maturação e não tinha disponível.
Pelas especiarias, pelo toque cítrico, por ter zestes de casca de laranja imaginei em harmonizar com a Franke Bier - WitBier, uma cerveja que leva cascas de laranja e coentro na receita. Porém o porco já não combinaria muito bem, pois apesar da cerveja ter até um toque apimentado é uma cerveja leve.
A única opção que eu ainda tinha disponível é a Franke Bier - Tertúlia (Kölsch) que combina com pratos mais leves, como pratos a base de peixe por exemplo.
Então esqueci as minhas cervejas e passei a imaginar qual estilo harmonizaria com o prato como um todo e quem poderia ter a cerveja.
Não demorou para me lembrar da Dunkelweizen dos amigos cervejeiros caseiros da OverBeer, Eduardo Overbeck (filho) e Jorge Overbeck (pai).
A Dunkelweizen é um estilo meio que coringa para harmonização com pratos, especialmente a base de carnes fortes.
Os Overbeck tinham a cerveja disponível e toparam o desafio.
E o resultado?
Bem eu não sei se ficou bom pois não tive a oportunidade de degustar esse prato e fazer essa harmonização, mas acho que o João ainda vai nos proporcionar esse prazer hehe.
O que sei é que ele foi APROVADO pela banca com nota 10!!!
Basta ver as fotos que ja temos certeza que ficou fantástico.
João, parabéns pelo prato, parabéns pela aprovação da banca e parabéns por se propor a fazer essa harmonização com uma cerveja artesanal feita aqui na cidade.
De forma geral a maioria dos profissionais da gastronomia precisam conhecer a cerveja artesanal, sua capacidade de harmonização, que vai de saladas até sobremesas e você já tem essa visão, que pode apostar: É uma tendência de um mercado que vai crescer muito.
Em breve farei um post falando um pouco mais sobre a harmonização de cervejas artesanais com pratos especiais, quem sabe até com a receita de "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico", harmonizada com Franke Bier Red Ale. (hehehe)
Abraço e um brinde aos prazeres das cervejas e comidas verdadeiras.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
O papel, o sucesso e os desafios da cerveja artesanal.
O amigo Elias Kuck esta cursando Agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na cadeira de Engenharia de Alimentos a turma terá de fazer um trabalho sobre cerveja, que vai abordar desde o plantio dos insumos até o engarrafamento.
Também vão destacar as micro cervejarias brasileiras, seu papel e relatar o sucesso das cervejas artesanais.
O Elias perguntou se eu poderia colaborar dando minha opinião sobre o papel, o sucesso e os desafios.
Fiquei muito feliz especialmente por dois motivos:
1° - Por esse trabalho estar sendo desenvolvido na UFRGS. Isso mostra o quanto as micro cervejarias e as cervejas artesanais vem ganhando destaque.
Há poucos anos atrás era praticamente impossível encontrar cerveja artesanal para vender, quem diria ser tema de um trabalho na Universidade.
Talvez muitos da turma ainda não conheçam as cervejas artesanais, no mínimo vão ficar muito curiosas e vão levar os conhecimentos para mais pessoas.
Que lugar melhor para difundir conhecimento que uma turma de Universidade?
2° - Por ser lembrado pelo Elias para falar sobre o papel das Micro cervejarias, seu sucesso e desafios.
Faço a minha própria cerveja artesanal como hobby, sou membro da Associação de Cervejeiros Artesanais do Rio Grande do Sul (Acerva Gaúcha) e dos Cervejeiros do Vale do Rio Pardo (CerVale Rio Pardo).
Não sou dono de micro cervejaria, mas falo com conhecimento de quem é muito ligado ao movimento cervejeiro e acompanha a anos o mercado em todos os aspectos.
Tenho muitos amigos no ramo, tenho visitado e conhecido micro cervejarias em vários estados brasileiros. Com isso tenho contato cervejeiros e empresários que compartilham seus cases de sucesso, queixas, erros e acertos.
Achei que seria interessante dar minha opinião já fazendo um post no Blog e assim tornar a leitura disponível para quem mais tivesse interesse.
Para entender o sucesso das cervejas artesanais é preciso fazer uma pequena análise histórica do mercado cervejeiro mundial.
Em 1985 na música "Geração Coca-Cola" a banda Legião Urbana cantava que "quando nascemos fomos programados a receber" influências dos EUA.
A influência dos EUA no Brasil não foram apenas nos "enlatados", mas nas cervejas também.
De 1920 a 1933 vigorou nos EUA a Lei Seca que proibia a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas.
A intenção era reduzir o consumo de álcool e acabar com as Empresas que produziam. O que se viu foi uma procura ainda maior por produtos de alto teor alcoólico. O surgimento de fábricas clandestinas controladas por bandidos, contrabandistas e gangsters, que travavam verdadeiras guerras sangrentas pelo poder.
A corrupção era galopante, não haviam fiscais suficientes e tudo virou um grande caos.
O combate ao consumo de bebidas alcoólicas não era exclusividade dos EUA. Entre o final do século XIX e começo do século XX, em diferentes partes do mundo vários movimentos organizados e eventos aconteciam.
Esses movimentos influenciaram a cerveja e muitas coisas que existem hoje, como por exemplo o surgimento dos Pubs.
É preciso destacar também a primeira grande guerra, onde a preocupação era não utilizar grãos para a produção de bebidas a fim de evitar a escassez.
Já na Segunda Guerra Mundial o problema foi a devastação da Europa e dos principais produtores e fornecedores de malte e lúpulos.
Nos EUA primeiro passo para o fim da Lei Seca foi liberar bebidas com até 4% de teor alcoólico.
Com o cenário descrito acima, para estar dentro da legalidade era preciso se adaptar.
Era preciso abandonar as cervejas Ale (preferidas até antes da Lei Seca) e produzir cervejas de baixa graduação alcoólica para uma população que ficou mais de uma década praticamente só tomando refrigerantes.
O paladar da população para cervejas complexas tinha acabado.
Além da escassez das matérias primas base da cerveja, o milho era abundante e passou, junto com arroz, a ser utilizados nas bebidas como alternativa barata para substituição de malte.
O resultado podemos chamar de Lite American Lager.
Um estilo de cerveja leve, aguada, sem sabores de malte ou lúpulo, com baixo teor alcoólico e que precisa ser consumida estupidamente gelada para mascarar sabores indesejados da bebida, mas que dentro do estilo esses sabores são permitidos.
Opa...alguém se familiarizou com o termo "estupidamente gelada"?
Pois bem, esse estilo foi implementado no Brasil.
Certamente não só por influência dos EUA, mas também por força e imposição da grande indústria que concorre igual e deslealmente com as pequenas. E sob um pretexto de ser uma cerveja refrescante para matar a sede, uma "cerveja adaptada ao clima tropical do Brasil".
Não vou entrar no quesito de que os famosos cereais não maltados são substitutos baratos e sem qualidade de malte, não vou entrar em detalhes de quantidade e qualidade de lúpulos,
na opção por outros estilos, nem dos diferentes micro-climas do extenso território brasileiro ou qualquer outro argumento que derrubaria facilmente essa teoria de "cerveja adaptada ao Brasil".
O fato é que até poucos anos a população brasileira só tinha acesso a um tipo de cerveja, a Lite American Lager.
Se pegarmos todas as marcas das cervejas tradicionais que estão disponíveis no mercado, praticamente todas são esse estilo. No rótulo até muitas trazem "Cerveja tipo Pilsen", mas estão muito, muito, muito longe de ser uma Pilsen de verdade a ponto de que nem seriam chamadas de cerveja na Alemanha.
Hoje estamos vivendo uma revolução cervejeira graças as cervejas artesanais.
Essa mesma revolução aconteceu nos EUA a mais de 20 anos e podemos dizer vamos nos inspirar no que já aconteceu por lá, onde o mercado de cervejas artesanais já chega a 20% de participação no mercado.
Também vamos fazer a nossa revolução cervejeira, e já começou!!!
É fantástico apresentar uma cerveja diferente para pessoas que só conhecem as tradicionais e dizem que a X é a melhor, ou que só toma Y, ou que bom é Z que é mais barata...
Diga-se de passagem que dentro da proposta, as cervejas tradicionais tem qualidade, são bons no que fazem, possuem um controle de produção fantástico, alta tecnologia empregada, garantem o mesmo produto em diferentes fábricas e uma capilaridade de distribuição impressionante.
Mas pecam em se limitar em produzir basicamente apenas um estilo de cerveja.
As pessoas quase não acreditam quando digo que todas as cervejas tradicionais são o mesmo estilo, umas melhores, outras piores, mas todas iguais e que num teste cego com várias só com sorte acertariam uma ou duas.
Se surpreendem quando digo que existem mais de 100 estilos diferentes e eles só conhecem um.
Tem uma frase que diz que o que é bom é fácil acostumar-se.
Comer e beber bem certamente são uns dos maiores prazeres da vida.
As palavras chave são: variedade e qualidade!!
Eu diria que o principal motivo do sucesso das cervejas artesanais é justamente conseguir surpreender os consumidores nessa lacuna gigantesca que existe de as pessoas poderem conhecer um estilo diferente do que as tradicionais oferecem.
As pessoas se encantam com o sabor de uma Red Ale, se deslumbram pelo perfume de uma IPA, se surpreendem com o gosto de uma WitBier, se encantam com a sutileza de uma Kölsch ou até mesmo enchem a alma ao degustar uma Pilsen Puro Malte.
O sucesso está diretamente ligado a qualidade e a variedade das cervejas que as micro cervejarias brasileiras tem oferecido aos consumidores.
O Mercado de cerveja artesanal do Brasil, mesmo com uma história curta, já tem grande destaque internacional.
As cervejas brasileiras conquistaram inúmeras medalhas nos principais torneios do mundo.
Diversos cervejeiros consagrados mundialmente vieram para o Brasil fazer produções colaborativas com as micro cervejarias brasileiras e alguns cervejeiros do Brasil foram fazer o mesmo fora do país.
A papel das micro cervejarias nesse cenário é mais complexo:
É preciso fomentar a cultura cervejeira;
É preciso educar o consumidor, explicar para ele o que ele esta consumindo;
É preciso participar de eventos, de feiras e festivais;
É preciso dar palestras em faculdades;
É preciso criar eventos;
É preciso fazer parcerias com restaurantes e promover refeições orientadas e harmonizadas;
É preciso conversar na mesa entre amigos sobre cerveja;
É preciso apoiar e compartilhar conhecimento com o movimento Homebrew, que são os maiores difusores da cultura cervejeira;
É preciso incentivar o consumo moderado, mas com qualidade (Beba Menos Beba Melhor);
É preciso ter canais de comunicação com os consumidores;
É preciso abrir as cervejarias e prepara-las para receber visitantes;
É preciso descriminalizar a cerveja;
Ou seja, é uma infinidade de ações que é preciso fazer, muitas vezes gastando e sem retorno imediato.
Não adianta montar uma planta cervejeira, fazer alguma cerveja básica, um espaço para festa em meio a cervejaria e deu.
Com o boom das cervejas artesanais vão surgir muitos oportunistas e aventureiros achando que o negócio é uma maravilha.
O mercado vai cuidar de selecionar as que vão sobreviver ou não. E eu garanto: vai sobreviver aquelas que se preocupam com a qualidade e são engajadas com o mercado cervejeiro como um todo.
Já visitei algumas que se preocupam mais com a dupla sertaneja que vai tocar nas dependências da cervejaria do que com a qualidade das cervejas produzidas.
Em contra partida, para as que primam pela qualidade e estão engajadas na revolução cervejeira do Brasil, dispostas a fazer tudo que "É preciso..." e muito mais, tenho certeza que vão ter muito reconhecimento do mercado consumidor e vão se destacar.
Todo esse barulho que estamos vendo a cerveja artesanal fazer no mercado é apenas o começo, é a pontinha do iceberg.
Acima eu disse que descriminalizar a cerveja era um papel das micro cervejarias, mas vou mudar isso e passar para um desafio.
É desafio para as micro cervejarias descriminalizar a cerveja.
A cerveja tem uma imagem nada positiva na sociedade.
Graças a campanhas publicitárias ela esta associada a consumo exagerado, mulher pelada, verão, praia e futebol.
Está associada a tomar em latinha e jogar a mesma em qualquer lugar, ou tomar long-neck no bico.
Imagine a seguinte situação:
Você chega num restaurante relativamente bom e diz que quer tomar uma cerveja, nem precisa pedir a carta de cervejas, o garçom nunca viu isso.
Nem se arrisque a perguntar se tem alguma cerveja na pressão, isso o garçom nunca ouviu falar.
Só com muita sorte, ou até milagre, você vai encontrar uma cerveja artesanal.
Normalmente vai ter que escolher uma que provavelmente esta "pagando" as cadeiras, mesas, geladeiras e fachada do restaurante. As grandes indústrias que determinam dessa forma quais marcas o restaurante poderá vender (contratos de exclusividade onde o dono do restaurante não se preocupa com os clientes).
O garçom vai trazer a cerveja num porta garrafa possivelmente todo mofado.
O copo talvez não esteja engordurado, mas talvez seja aqueles que parecem mais um pote de requeijão.
Provavelmente a cerveja não vai harmonizar com nenhum dos pratos oferecidos pelo restaurante, mas ninguém se importa com isso (nem o dono do restaurante nem o chef).
Mas com certeza ela vai estar estupidamente gelada.
Agora vamos imaginar outra situação:
Você chega no mesmo restaurante (bom) e diz que quer tomar vinho.
Possivelmente o garçom vai trazer a carta de vinhos. Você analisa a carta, escolhe o vinho e não se assusta com os preços de R$50, R$60, R$70 (ainda imagina "é o preço").
O garçom traz a garrafa, um pano cuidadosamente dobrado sobre o braço e as taças. Abre a garrafa com todo o cuidado, da a rolha para você cheirar, talvez você não entenda nada de vinho, mas cheira a rolha (talvez só descubra se o vinho estiver azedo com isso), mas mesmo assim cheira e sinaliza positivamente com a cabeça para o garçom. Ele enrola o pano na garrafa e serve uma pequena quantidade no seu copo para degustar (novamente talvez você não entenda), você da uma bela cheirada no copo, gira a taça e observa as bordas, toma um pequeno gole, alguns segundos se seguem e você sinaliza positivamente para o garçom dizendo "pode servir".
Que fantástico todo esse cerimonial né? Que respeito a bebida e a quem a produziu. E certamente você vai conseguir pedir um prato que vai harmonizar com o vinho.
A cerveja e seus vários estilos oferecem uma infinidade de possibilidades de harmonização. Desde os pratos de entrada, pratos principais e até com sobremesas.
Não quero agora travar uma batalha de cerveja x vinho (quem sabe em outro post futuramente hehe), mas a cerveja consumida com moderação traz inúmeros benefícios para a saúde, até mais que o vinho com quantidades superiores de antioxidantes, vitaminas e fibras.
Não quero esse cerimonial para tomar a cerveja, mas temos muito que aprender com os produtores de vinho, desde apresentação a toda a mística que envolve o produto.
A cerveja tem que ser consumida de forma diferente. Ao degustar uma cerveja devemos utilizar nossos 5 sentidos:
Audição - Ao escutarmos a som da garrafa abrindo e nesse momento já podemos avaliar o nível de carbonatação da garrafa.
Na Alemanha é comum até colocar o copo próximo ao ouvido para escutar a espuma e as bolhas de CO² se desprendendo do copo.
Tato - É o contato com a garrafa e com o poco para avaliar sua temperatura.
Visão - É importante visualizar o rótulo e ler as informações nele contido. Com a cerveja servida é hora de visualizar a formação e a duração da espuma, a cor da cerveja.
Olfato - Que é obrigatório analisar numa cerveja artesanal, nas tradicionais não precisa fazer isso (nem deve, as vezes não vai ser muito agradável).
Pelo olfato é possível identificar nuances na cerveja gerados através das leveduras, do malte, do lúpulo, especiarias, métodos de maturação, dentre outros. Mas vai de notas florais e perfumadas a frutas cítricas, bananas, ameixas, café, dentre inúmeros outros aromas.
Paladar - É o grande momento da cerveja artesanal. É tomar sentindo o gosto, é tomar pensando, é tomar percebendo sabores que chegam a ser surpreendentes.
Mas vamos continuar falando no desafio para as micro cervejarias.
Algumas pessoas defendem que o maior desafio agora é criar o estilo brasileiro de cerveja.
Que seria o estilo do Brasil, nossa carta de apresentação para o mundo. Talvez com ingredientes típicos brasileiros.
Eu discordo, antes disso o desafio é fazer as pessoas experimentarem a cerveja artesanal, conhecer novos estilos e saber o que estão tomando.
Não adianta termos o estilo brasileiro de cerveja se esse ficar restrito a uma pequena parcela da população que conhece cerveja.
É preciso que grande parte da população ao menos saiba que existem outros estilos, que saibam o que é uma Porter, APA, Weiss, Amber Ale, Barley Wine, Tripel, etc.
Cerca de 98% dos consumidores de cerveja no Brasil só consomem as cervejas tradicionais e o desafio é justamente fazer essa parcela da população ao menos experimentar as artesanais.
Mas o maior desafio das micro cervejarias hoje no Brasil é sobreviver, isso mesmo SOBREVIVER!!
O desafio é pleitar uma tributação diferenciada, mais apropriada e justa para as micro cervejarias que hoje são taxadas igual as grandes indústrias que possuem ramificações em várias partes do mundo, capital gigantesco e acionistas. As micro cervejarias são controladas geralmente por pequenos e até micro empresários.
O custo da produção é infinitamente maior que das cervejas tradicionais.
As micro cervejarias produzem uma variedade muito maior de estilos, onde se utilizam maltes com diferentes graus de torrefação para adquirir nuances de diferentes sabores e colorações.
O custo por litro produzido é muito maior.
Não utilizam produtos e aditivos químicos para baratear ou acelerar a produção.
O número de pessoas empregadas por litro produzido é maior que das grandes indústrias, onde a maior parte do processo é totalmente automatizado.
Utilizarem matéria prima de qualidade muito superior e mais caras e tem seu custo fracionado numa quantidade muito pequena de litros produzidos.
Ainda fomentam o turismo e a economia regional.
É uma concorrência desleal.
Em países desenvolvidos as micro cervejarias são taxadas de forma diferenciada e as cervejas custam em torno de 40 a 50% a mais que as tradicionais. No Brasil esse valor chega a ser dez vezes superior.
Um primeiro passo seria a inclusão das micro cervejarias no Simples Nacional, o que vem sendo discutido. Mas esbarra na burocracia brasileira, na disputa de poderes e nas ações de lobby disfarçado das grandes cervejarias (Um levantamento de um repórter da VEJA - SP comprovou que em 2010 as grandes indústrias doaram de forma legal quase R$20 milhões para políticos).
Voltando para a música da Legião Urbana:
"Depois de 20 anos na escola, não é difícil aprender, todas as manhas do seu jogo sujo".
Mesmo sofrendo com lobby, financiamento "legal" de políticos, bloqueio de pontos de venda e concorrência desleal as micro cervejarias vem ganhando espaço e destaque com a cerveja artesanal pela qualidade e pela variedade de estilos.
Isso é uma resposta do mercado que esta cansando da imposição das grandes indústrias e querem um produto diferenciado.
Aos amigos que tiveram coragem de empreender no negócio eu só posso dar meu apoio de todas as formas que consigo e dizer que continuem e acreditem.
Quando Steve Jobs quis contratar o CEO da Pepsi John Sculley, (a Apple ainda era uma Empresa minúscula comparada com a Pepsi).
Ele perguntou:
"Você quer passar o resto de sua vida vendendo água com açúcar ou quer mudar o mundo?"
Vocês estão mudando o mundo, vocês estão oferecendo aos consumidores um produto milenar, mas que nunca tiveram acesso.
"Somos os filhos da revolução" cervejeira que esta apenas começando.
"Vamos fazer nosso dever de casa", cervejas de qualidade, "e ai então vocês vão ver suas crianças derrubado reis".
Na cadeira de Engenharia de Alimentos a turma terá de fazer um trabalho sobre cerveja, que vai abordar desde o plantio dos insumos até o engarrafamento.
Também vão destacar as micro cervejarias brasileiras, seu papel e relatar o sucesso das cervejas artesanais.
O Elias perguntou se eu poderia colaborar dando minha opinião sobre o papel, o sucesso e os desafios.
Fiquei muito feliz especialmente por dois motivos:
1° - Por esse trabalho estar sendo desenvolvido na UFRGS. Isso mostra o quanto as micro cervejarias e as cervejas artesanais vem ganhando destaque.
Há poucos anos atrás era praticamente impossível encontrar cerveja artesanal para vender, quem diria ser tema de um trabalho na Universidade.
Talvez muitos da turma ainda não conheçam as cervejas artesanais, no mínimo vão ficar muito curiosas e vão levar os conhecimentos para mais pessoas.
Que lugar melhor para difundir conhecimento que uma turma de Universidade?
2° - Por ser lembrado pelo Elias para falar sobre o papel das Micro cervejarias, seu sucesso e desafios.
Faço a minha própria cerveja artesanal como hobby, sou membro da Associação de Cervejeiros Artesanais do Rio Grande do Sul (Acerva Gaúcha) e dos Cervejeiros do Vale do Rio Pardo (CerVale Rio Pardo).
Não sou dono de micro cervejaria, mas falo com conhecimento de quem é muito ligado ao movimento cervejeiro e acompanha a anos o mercado em todos os aspectos.
Tenho muitos amigos no ramo, tenho visitado e conhecido micro cervejarias em vários estados brasileiros. Com isso tenho contato cervejeiros e empresários que compartilham seus cases de sucesso, queixas, erros e acertos.
Achei que seria interessante dar minha opinião já fazendo um post no Blog e assim tornar a leitura disponível para quem mais tivesse interesse.
Para entender o sucesso das cervejas artesanais é preciso fazer uma pequena análise histórica do mercado cervejeiro mundial.
Em 1985 na música "Geração Coca-Cola" a banda Legião Urbana cantava que "quando nascemos fomos programados a receber" influências dos EUA.
A influência dos EUA no Brasil não foram apenas nos "enlatados", mas nas cervejas também.
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| Cervejaria clandestina sendo esvaziada. Imagens Google |
De 1920 a 1933 vigorou nos EUA a Lei Seca que proibia a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas.
A intenção era reduzir o consumo de álcool e acabar com as Empresas que produziam. O que se viu foi uma procura ainda maior por produtos de alto teor alcoólico. O surgimento de fábricas clandestinas controladas por bandidos, contrabandistas e gangsters, que travavam verdadeiras guerras sangrentas pelo poder.
![]() |
| Fiscais eliminando cerveja clandestina |
A corrupção era galopante, não haviam fiscais suficientes e tudo virou um grande caos.
O combate ao consumo de bebidas alcoólicas não era exclusividade dos EUA. Entre o final do século XIX e começo do século XX, em diferentes partes do mundo vários movimentos organizados e eventos aconteciam.
Esses movimentos influenciaram a cerveja e muitas coisas que existem hoje, como por exemplo o surgimento dos Pubs.
| Alemanha devastada na Segunda Guerra Mundial |
É preciso destacar também a primeira grande guerra, onde a preocupação era não utilizar grãos para a produção de bebidas a fim de evitar a escassez.
Já na Segunda Guerra Mundial o problema foi a devastação da Europa e dos principais produtores e fornecedores de malte e lúpulos.
Nos EUA primeiro passo para o fim da Lei Seca foi liberar bebidas com até 4% de teor alcoólico.
Com o cenário descrito acima, para estar dentro da legalidade era preciso se adaptar.
Era preciso abandonar as cervejas Ale (preferidas até antes da Lei Seca) e produzir cervejas de baixa graduação alcoólica para uma população que ficou mais de uma década praticamente só tomando refrigerantes.
O paladar da população para cervejas complexas tinha acabado.
Além da escassez das matérias primas base da cerveja, o milho era abundante e passou, junto com arroz, a ser utilizados nas bebidas como alternativa barata para substituição de malte.
O resultado podemos chamar de Lite American Lager.
Um estilo de cerveja leve, aguada, sem sabores de malte ou lúpulo, com baixo teor alcoólico e que precisa ser consumida estupidamente gelada para mascarar sabores indesejados da bebida, mas que dentro do estilo esses sabores são permitidos.
Opa...alguém se familiarizou com o termo "estupidamente gelada"?
Pois bem, esse estilo foi implementado no Brasil.
Certamente não só por influência dos EUA, mas também por força e imposição da grande indústria que concorre igual e deslealmente com as pequenas. E sob um pretexto de ser uma cerveja refrescante para matar a sede, uma "cerveja adaptada ao clima tropical do Brasil".
Não vou entrar no quesito de que os famosos cereais não maltados são substitutos baratos e sem qualidade de malte, não vou entrar em detalhes de quantidade e qualidade de lúpulos,
na opção por outros estilos, nem dos diferentes micro-climas do extenso território brasileiro ou qualquer outro argumento que derrubaria facilmente essa teoria de "cerveja adaptada ao Brasil".
O fato é que até poucos anos a população brasileira só tinha acesso a um tipo de cerveja, a Lite American Lager.
Se pegarmos todas as marcas das cervejas tradicionais que estão disponíveis no mercado, praticamente todas são esse estilo. No rótulo até muitas trazem "Cerveja tipo Pilsen", mas estão muito, muito, muito longe de ser uma Pilsen de verdade a ponto de que nem seriam chamadas de cerveja na Alemanha.
Hoje estamos vivendo uma revolução cervejeira graças as cervejas artesanais.
Essa mesma revolução aconteceu nos EUA a mais de 20 anos e podemos dizer vamos nos inspirar no que já aconteceu por lá, onde o mercado de cervejas artesanais já chega a 20% de participação no mercado.
Também vamos fazer a nossa revolução cervejeira, e já começou!!!
É fantástico apresentar uma cerveja diferente para pessoas que só conhecem as tradicionais e dizem que a X é a melhor, ou que só toma Y, ou que bom é Z que é mais barata...
| Linha de envase cerveja Crystal (Grupo Petrópolis) Rondonópolis - MT |
Diga-se de passagem que dentro da proposta, as cervejas tradicionais tem qualidade, são bons no que fazem, possuem um controle de produção fantástico, alta tecnologia empregada, garantem o mesmo produto em diferentes fábricas e uma capilaridade de distribuição impressionante.
Mas pecam em se limitar em produzir basicamente apenas um estilo de cerveja.
As pessoas quase não acreditam quando digo que todas as cervejas tradicionais são o mesmo estilo, umas melhores, outras piores, mas todas iguais e que num teste cego com várias só com sorte acertariam uma ou duas.
Se surpreendem quando digo que existem mais de 100 estilos diferentes e eles só conhecem um.
Tem uma frase que diz que o que é bom é fácil acostumar-se.
Comer e beber bem certamente são uns dos maiores prazeres da vida.
As palavras chave são: variedade e qualidade!!
Eu diria que o principal motivo do sucesso das cervejas artesanais é justamente conseguir surpreender os consumidores nessa lacuna gigantesca que existe de as pessoas poderem conhecer um estilo diferente do que as tradicionais oferecem.
As pessoas se encantam com o sabor de uma Red Ale, se deslumbram pelo perfume de uma IPA, se surpreendem com o gosto de uma WitBier, se encantam com a sutileza de uma Kölsch ou até mesmo enchem a alma ao degustar uma Pilsen Puro Malte.
O sucesso está diretamente ligado a qualidade e a variedade das cervejas que as micro cervejarias brasileiras tem oferecido aos consumidores.
O Mercado de cerveja artesanal do Brasil, mesmo com uma história curta, já tem grande destaque internacional.
As cervejas brasileiras conquistaram inúmeras medalhas nos principais torneios do mundo.
Diversos cervejeiros consagrados mundialmente vieram para o Brasil fazer produções colaborativas com as micro cervejarias brasileiras e alguns cervejeiros do Brasil foram fazer o mesmo fora do país.
A papel das micro cervejarias nesse cenário é mais complexo:
É preciso fomentar a cultura cervejeira;
É preciso educar o consumidor, explicar para ele o que ele esta consumindo;
É preciso participar de eventos, de feiras e festivais;
É preciso dar palestras em faculdades;
É preciso criar eventos;
É preciso fazer parcerias com restaurantes e promover refeições orientadas e harmonizadas;
É preciso conversar na mesa entre amigos sobre cerveja;
É preciso apoiar e compartilhar conhecimento com o movimento Homebrew, que são os maiores difusores da cultura cervejeira;
É preciso incentivar o consumo moderado, mas com qualidade (Beba Menos Beba Melhor);
É preciso ter canais de comunicação com os consumidores;
É preciso abrir as cervejarias e prepara-las para receber visitantes;
É preciso descriminalizar a cerveja;
Ou seja, é uma infinidade de ações que é preciso fazer, muitas vezes gastando e sem retorno imediato.
Não adianta montar uma planta cervejeira, fazer alguma cerveja básica, um espaço para festa em meio a cervejaria e deu.
Com o boom das cervejas artesanais vão surgir muitos oportunistas e aventureiros achando que o negócio é uma maravilha.
O mercado vai cuidar de selecionar as que vão sobreviver ou não. E eu garanto: vai sobreviver aquelas que se preocupam com a qualidade e são engajadas com o mercado cervejeiro como um todo.
Já visitei algumas que se preocupam mais com a dupla sertaneja que vai tocar nas dependências da cervejaria do que com a qualidade das cervejas produzidas.
Em contra partida, para as que primam pela qualidade e estão engajadas na revolução cervejeira do Brasil, dispostas a fazer tudo que "É preciso..." e muito mais, tenho certeza que vão ter muito reconhecimento do mercado consumidor e vão se destacar.
Todo esse barulho que estamos vendo a cerveja artesanal fazer no mercado é apenas o começo, é a pontinha do iceberg.
Acima eu disse que descriminalizar a cerveja era um papel das micro cervejarias, mas vou mudar isso e passar para um desafio.
É desafio para as micro cervejarias descriminalizar a cerveja.
A cerveja tem uma imagem nada positiva na sociedade.
Graças a campanhas publicitárias ela esta associada a consumo exagerado, mulher pelada, verão, praia e futebol.
Está associada a tomar em latinha e jogar a mesma em qualquer lugar, ou tomar long-neck no bico.
Imagine a seguinte situação:
Você chega num restaurante relativamente bom e diz que quer tomar uma cerveja, nem precisa pedir a carta de cervejas, o garçom nunca viu isso.
Nem se arrisque a perguntar se tem alguma cerveja na pressão, isso o garçom nunca ouviu falar.
Só com muita sorte, ou até milagre, você vai encontrar uma cerveja artesanal.
Normalmente vai ter que escolher uma que provavelmente esta "pagando" as cadeiras, mesas, geladeiras e fachada do restaurante. As grandes indústrias que determinam dessa forma quais marcas o restaurante poderá vender (contratos de exclusividade onde o dono do restaurante não se preocupa com os clientes).
O garçom vai trazer a cerveja num porta garrafa possivelmente todo mofado.
O copo talvez não esteja engordurado, mas talvez seja aqueles que parecem mais um pote de requeijão.
Provavelmente a cerveja não vai harmonizar com nenhum dos pratos oferecidos pelo restaurante, mas ninguém se importa com isso (nem o dono do restaurante nem o chef).
Mas com certeza ela vai estar estupidamente gelada.
Agora vamos imaginar outra situação:
Você chega no mesmo restaurante (bom) e diz que quer tomar vinho.
Possivelmente o garçom vai trazer a carta de vinhos. Você analisa a carta, escolhe o vinho e não se assusta com os preços de R$50, R$60, R$70 (ainda imagina "é o preço").
O garçom traz a garrafa, um pano cuidadosamente dobrado sobre o braço e as taças. Abre a garrafa com todo o cuidado, da a rolha para você cheirar, talvez você não entenda nada de vinho, mas cheira a rolha (talvez só descubra se o vinho estiver azedo com isso), mas mesmo assim cheira e sinaliza positivamente com a cabeça para o garçom. Ele enrola o pano na garrafa e serve uma pequena quantidade no seu copo para degustar (novamente talvez você não entenda), você da uma bela cheirada no copo, gira a taça e observa as bordas, toma um pequeno gole, alguns segundos se seguem e você sinaliza positivamente para o garçom dizendo "pode servir".
Que fantástico todo esse cerimonial né? Que respeito a bebida e a quem a produziu. E certamente você vai conseguir pedir um prato que vai harmonizar com o vinho.
A cerveja e seus vários estilos oferecem uma infinidade de possibilidades de harmonização. Desde os pratos de entrada, pratos principais e até com sobremesas.
Não quero agora travar uma batalha de cerveja x vinho (quem sabe em outro post futuramente hehe), mas a cerveja consumida com moderação traz inúmeros benefícios para a saúde, até mais que o vinho com quantidades superiores de antioxidantes, vitaminas e fibras.
Não quero esse cerimonial para tomar a cerveja, mas temos muito que aprender com os produtores de vinho, desde apresentação a toda a mística que envolve o produto.
A cerveja tem que ser consumida de forma diferente. Ao degustar uma cerveja devemos utilizar nossos 5 sentidos:
Audição - Ao escutarmos a som da garrafa abrindo e nesse momento já podemos avaliar o nível de carbonatação da garrafa.
Na Alemanha é comum até colocar o copo próximo ao ouvido para escutar a espuma e as bolhas de CO² se desprendendo do copo.
Tato - É o contato com a garrafa e com o poco para avaliar sua temperatura.
Visão - É importante visualizar o rótulo e ler as informações nele contido. Com a cerveja servida é hora de visualizar a formação e a duração da espuma, a cor da cerveja.
Olfato - Que é obrigatório analisar numa cerveja artesanal, nas tradicionais não precisa fazer isso (nem deve, as vezes não vai ser muito agradável).
Pelo olfato é possível identificar nuances na cerveja gerados através das leveduras, do malte, do lúpulo, especiarias, métodos de maturação, dentre outros. Mas vai de notas florais e perfumadas a frutas cítricas, bananas, ameixas, café, dentre inúmeros outros aromas.
Paladar - É o grande momento da cerveja artesanal. É tomar sentindo o gosto, é tomar pensando, é tomar percebendo sabores que chegam a ser surpreendentes.
Mas vamos continuar falando no desafio para as micro cervejarias.
Algumas pessoas defendem que o maior desafio agora é criar o estilo brasileiro de cerveja.
Que seria o estilo do Brasil, nossa carta de apresentação para o mundo. Talvez com ingredientes típicos brasileiros.
Eu discordo, antes disso o desafio é fazer as pessoas experimentarem a cerveja artesanal, conhecer novos estilos e saber o que estão tomando.
Não adianta termos o estilo brasileiro de cerveja se esse ficar restrito a uma pequena parcela da população que conhece cerveja.
É preciso que grande parte da população ao menos saiba que existem outros estilos, que saibam o que é uma Porter, APA, Weiss, Amber Ale, Barley Wine, Tripel, etc.
Cerca de 98% dos consumidores de cerveja no Brasil só consomem as cervejas tradicionais e o desafio é justamente fazer essa parcela da população ao menos experimentar as artesanais.
Mas o maior desafio das micro cervejarias hoje no Brasil é sobreviver, isso mesmo SOBREVIVER!!
O desafio é pleitar uma tributação diferenciada, mais apropriada e justa para as micro cervejarias que hoje são taxadas igual as grandes indústrias que possuem ramificações em várias partes do mundo, capital gigantesco e acionistas. As micro cervejarias são controladas geralmente por pequenos e até micro empresários.
Algumas cervejas artesanais chegam a ter 70% do custo em impostos.
O custo da produção é infinitamente maior que das cervejas tradicionais.
As micro cervejarias produzem uma variedade muito maior de estilos, onde se utilizam maltes com diferentes graus de torrefação para adquirir nuances de diferentes sabores e colorações.
O custo por litro produzido é muito maior.
Não utilizam produtos e aditivos químicos para baratear ou acelerar a produção.
O número de pessoas empregadas por litro produzido é maior que das grandes indústrias, onde a maior parte do processo é totalmente automatizado.
Utilizarem matéria prima de qualidade muito superior e mais caras e tem seu custo fracionado numa quantidade muito pequena de litros produzidos.
Ainda fomentam o turismo e a economia regional.
É uma concorrência desleal.
Em países desenvolvidos as micro cervejarias são taxadas de forma diferenciada e as cervejas custam em torno de 40 a 50% a mais que as tradicionais. No Brasil esse valor chega a ser dez vezes superior.
Um primeiro passo seria a inclusão das micro cervejarias no Simples Nacional, o que vem sendo discutido. Mas esbarra na burocracia brasileira, na disputa de poderes e nas ações de lobby disfarçado das grandes cervejarias (Um levantamento de um repórter da VEJA - SP comprovou que em 2010 as grandes indústrias doaram de forma legal quase R$20 milhões para políticos).
Voltando para a música da Legião Urbana:
"Depois de 20 anos na escola, não é difícil aprender, todas as manhas do seu jogo sujo".
Mesmo sofrendo com lobby, financiamento "legal" de políticos, bloqueio de pontos de venda e concorrência desleal as micro cervejarias vem ganhando espaço e destaque com a cerveja artesanal pela qualidade e pela variedade de estilos.
Isso é uma resposta do mercado que esta cansando da imposição das grandes indústrias e querem um produto diferenciado.
Aos amigos que tiveram coragem de empreender no negócio eu só posso dar meu apoio de todas as formas que consigo e dizer que continuem e acreditem.
Quando Steve Jobs quis contratar o CEO da Pepsi John Sculley, (a Apple ainda era uma Empresa minúscula comparada com a Pepsi).
Ele perguntou:
"Você quer passar o resto de sua vida vendendo água com açúcar ou quer mudar o mundo?"
Vocês estão mudando o mundo, vocês estão oferecendo aos consumidores um produto milenar, mas que nunca tiveram acesso.
"Somos os filhos da revolução" cervejeira que esta apenas começando.
"Vamos fazer nosso dever de casa", cervejas de qualidade, "e ai então vocês vão ver suas crianças derrubado reis".
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Franke Bier, cerveja e religião
Sempre sou curioso pelo que tem por traz dos rótulos de cerveja.
Gosto de saber a história, as curiosidades, particularidades e os diferenciais das cervejas que degusto.
Acho que um dos segredos para uma cerveja ter sucesso, além da qualidade (claro), ela precisa ter uma história, um propósito, uma origem e diferenciais.
A cerveja em si tem sua origem ligada a lendas e curiosidades.
O surgimento da bebida acredita-se que tenha ocorrido ao acaso há mais de 10.000 anos.
Esta comprovado que o início do desenvolvimento da civilização humana e agricultura está diretamente relacionado com a arte da fabricação de cerveja.
Quanto a origem, uma lenda diz que coletores de cereais esqueceram cevada num recipiente ao relento, choveu sobre os grãos, o sol cuidou da germinação, choveu novamente e leveduras selvagens fermentaram aquele liquido. Alguém experimentou e assim nascia a cerveja, o resultado desse "acidente" foi atribuído a uma obra de milagre dos deuses.
A cerveja foi batizada assim pelos romanos em homenagem à deusa Ceres (Cervisiae em latim), deusa da agricultura e da fertilidade.
Durante a história vários deuses e santos foram relacionados a bebida.
Existem diversas evidências e teorias que dizem que a cerveja foi substituída por vinho nos textos bíblicos.
Jesus Cristo na verdade seria tomador de cerveja e teria multiplicado cerveja e não vinho em seu primeiro milagre.
Na idade média a relação com religião continuou e os monges foram os primeiros a produzir a cerveja em larga escala.
Mosteiros da "Ordem Trapista" produzem cervejas espetaculares sob a supervisão dos monges.
Como por exemplo: Rochefort, Achel, Orval, Westmalle, Vleteren Oester, Chimay, La Trappe, dentre outras.
Mas e a Franke Bier tem alguma coisa a ver com religião?
O nome Franke Bier é uma homenagem ao meu avô Bruno Oswaldo Franke.
Descendentes de Alemães, herdamos o sobrenome de Carl Friedrich Franke que viveu em Eisleben na Alemanha. Eisleben é a cidade onde nasceu e morreu Martin Luther.
Em 1852 Carl Friedrich Franke embarcou no navio Marianne com a esposa Christina Friederike Carolina Grimm e mais quatro filhos. Cruzaram o Atlântico para viver no Brasil em busca de uma nova pátria, fixaram inicialmente residência em Vila Tereza, onde hoje é Vera Cruz - RS.
Franke Bier também é uma referência do local onde a cerveja é produzida: No porão da casa que meus pais herdaram de meus avós maternos.
A temperatura no porão é ideal para fermentação de cervejas da família Ale durante todo o ano.
Meus avós construíram a casa em 1957, numa pequena chácara, o local ainda era colonia de Santa Cruz do Sul - RS. Não existia calçamento e na propriedade tinha lavouras de tabaco, milho, feijão, batata, pastagens, verduras, criação de galinhas, porcos e gado leiteiro (principal atividade).
Minha avó Ilory Franke, hoje com 86 anos, com uma saúde e memória invejável conta as histórias da época com riqueza de detalhes.
A comunidade não possuía igreja na localidade e a maioria dos habitantes eram descendentes de alemães que tinham como religião Luteranismo que surgiu em Eisleben.
Os fiéis se reuniam e os cultos da comunidade passaram a ser realizados no porão da família Franke, o mesmo porão que hoje produzimos a Franke Bier.
Com o tempo o número de fiéis foi crescendo e o porão ficou pequeno, então meus avós doaram terrenos para a construção da igreja. A comunidade se organizou e conseguiram construir o templo da Comunidade Martin Luther de Santa Cruz do Sul - IECLB. Que foi o primeiro templo da IECLB descentralizado da cidade.
A igreja foi inaugurada em 10/04/1983 no mesmo dia em que toda a família Franke estava comemorando meu primeiro ano de nascimento, foi um dia de muita celebração.
Minha família continua ligada a igreja e muitas vezes, em dias de produção, é possível escutar os sinos da Igreja anunciando o inicio ou término do culto, mas poderiam estar os sinos anunciando que é dia de produção de Franke Bier.
Gosto de saber a história, as curiosidades, particularidades e os diferenciais das cervejas que degusto.
Acho que um dos segredos para uma cerveja ter sucesso, além da qualidade (claro), ela precisa ter uma história, um propósito, uma origem e diferenciais.
A cerveja em si tem sua origem ligada a lendas e curiosidades.
O surgimento da bebida acredita-se que tenha ocorrido ao acaso há mais de 10.000 anos.
Esta comprovado que o início do desenvolvimento da civilização humana e agricultura está diretamente relacionado com a arte da fabricação de cerveja.
Quanto a origem, uma lenda diz que coletores de cereais esqueceram cevada num recipiente ao relento, choveu sobre os grãos, o sol cuidou da germinação, choveu novamente e leveduras selvagens fermentaram aquele liquido. Alguém experimentou e assim nascia a cerveja, o resultado desse "acidente" foi atribuído a uma obra de milagre dos deuses.
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| Reprodução de Ceres |
A cerveja foi batizada assim pelos romanos em homenagem à deusa Ceres (Cervisiae em latim), deusa da agricultura e da fertilidade.
Durante a história vários deuses e santos foram relacionados a bebida.
Existem diversas evidências e teorias que dizem que a cerveja foi substituída por vinho nos textos bíblicos.
Jesus Cristo na verdade seria tomador de cerveja e teria multiplicado cerveja e não vinho em seu primeiro milagre.
Na idade média a relação com religião continuou e os monges foram os primeiros a produzir a cerveja em larga escala.
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| Imagem Google |
Mosteiros da "Ordem Trapista" produzem cervejas espetaculares sob a supervisão dos monges.
Como por exemplo: Rochefort, Achel, Orval, Westmalle, Vleteren Oester, Chimay, La Trappe, dentre outras.
Mas e a Franke Bier tem alguma coisa a ver com religião?
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| Bruno Oswaldo Franke |
Descendentes de Alemães, herdamos o sobrenome de Carl Friedrich Franke que viveu em Eisleben na Alemanha. Eisleben é a cidade onde nasceu e morreu Martin Luther.
Em 1852 Carl Friedrich Franke embarcou no navio Marianne com a esposa Christina Friederike Carolina Grimm e mais quatro filhos. Cruzaram o Atlântico para viver no Brasil em busca de uma nova pátria, fixaram inicialmente residência em Vila Tereza, onde hoje é Vera Cruz - RS.
Franke Bier também é uma referência do local onde a cerveja é produzida: No porão da casa que meus pais herdaram de meus avós maternos.
A temperatura no porão é ideal para fermentação de cervejas da família Ale durante todo o ano.
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Meus avós construíram a casa em 1957, numa pequena chácara, o local ainda era colonia de Santa Cruz do Sul - RS. Não existia calçamento e na propriedade tinha lavouras de tabaco, milho, feijão, batata, pastagens, verduras, criação de galinhas, porcos e gado leiteiro (principal atividade).
Minha avó Ilory Franke, hoje com 86 anos, com uma saúde e memória invejável conta as histórias da época com riqueza de detalhes.
A comunidade não possuía igreja na localidade e a maioria dos habitantes eram descendentes de alemães que tinham como religião Luteranismo que surgiu em Eisleben.
| Marca das velas do altar nas vigas |
Os fiéis se reuniam e os cultos da comunidade passaram a ser realizados no porão da família Franke, o mesmo porão que hoje produzimos a Franke Bier.
Com o tempo o número de fiéis foi crescendo e o porão ficou pequeno, então meus avós doaram terrenos para a construção da igreja. A comunidade se organizou e conseguiram construir o templo da Comunidade Martin Luther de Santa Cruz do Sul - IECLB. Que foi o primeiro templo da IECLB descentralizado da cidade.
A igreja foi inaugurada em 10/04/1983 no mesmo dia em que toda a família Franke estava comemorando meu primeiro ano de nascimento, foi um dia de muita celebração.
Minha família continua ligada a igreja e muitas vezes, em dias de produção, é possível escutar os sinos da Igreja anunciando o inicio ou término do culto, mas poderiam estar os sinos anunciando que é dia de produção de Franke Bier.
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Uma explosão de merda na cerveja
Ontem eu estava fazendo uma cerveja, receita nova, com doses extremas de "Lúpulo".
Era para fazer até o "olho de Sauron (Senhor do anéis)" chorar de tão boa que iria ficar.
Ja estava a horas envolta da panela apreciando uma fervura intensa.
"Uma auréola de vapor" se formava na sala de brassagem e o perfume da fervura tomava conta do ar.
Estava quase na hora de finalizar, fazer o whirlpool e formar o "trub".
De repente, em um momento de distração ocorre "uma explosão de alguma coisa".
Foi uma "explosão de lúpulo no fundo da panela".
Uma explosão tão grande que parecia uma "explosão atômica".
"Vista no Google Maps" iria parecer com a de "Hiroshima", com direito até ao formato de "couve-flor".
Acreditem ou não, mas foi "uma explosão vista do espaço"!!!
Eu ja estava pensando em subir na "árvore dos fundos de casa" e sair dali "sobrevoando" "com um helicóptero".
Não conseguia enxergar nada, só "reflexos ao redor".
Quando tudo estava acalmando ocorreu a "explosão da tampa de uma garrafa de cerveja",
foi fraca e ocorreu apenas "uma erupção pelo gargalo de espuma", mas eu ainda estava tão assustado com a "explosão" anterior que borrei nas calças.
Confesso que achei que seria só "vapor", ou seja, achei que eram "indícios da formação" de um pum. Poderia ter imaginado "que deve ser algo" geralmente "achado numa fralda".
"Mas perai, tem a ver com cerveja?" Que papo é esse de pum? Vamos voltar a cerveja!!
Quando tudo acabou deu "pra ver o rosto de Germano olhando apavorado".
Ele estava perto da panela e "deixou cair uma coisa e dai deu nisso".
Perguntei:
- O que você deixou cair ai dentro,"Fermento"?
E ele me respondeu:
- Uma "TRUFA DE MERDA.....KKKKK"
Claro que nada disso aconteceu.
Ontem lancei uma brincadeira para ver quem estava ligado na página da Franke Bier no Facebook.
Postei a foto acima e o primeiro que acertasse o que é ganharia uma Franke Bier - Red Ale.
Surgiram tantas respostas engraçadas que resolvi tentar fazer um post a altura das respostas usando as mesmas. As palavras em negrito e entre aspas tirei das respostas.
Agradeço a todos que participaram e curtiram. Me diverti lendo as repostas e fazendo esse texto.
O primeiro a responder corretamente o que era foi Bruno Maia de Oliveira que respondeu "Trub". Essa foi fácil em Bruno? Vamos combinar a retirada da garrafa.
Trub é um material mucilaginoso precipitado durante a fervura do mosto constituído de resinas de lúpulo, restos de malte, proteínas coaguladas e polifenóis.
Para acumula-lo assim no centro da panela é preciso ficar fazendo uma circulação do mosto durante aproximadamente 5 minutos ininterruptos. Após 20 minutos de repouso o trub vai se concentrar todo no fundo e no centro, muitas vezes com algumas formas geométricas curiosas.
Quem quiser conferir as respostas originais acesse o link para a página da Franke Bier.
Agradeço o carinho, a leitura e espero que tenham gostado.
Tomara que nunca aconteça nada parecido hehe.
Prosit!!
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