sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Certificado de Aprendiz Cervejeiro

É difícil dizer quando comecei a tomar cerveja artesanal, mas sei exatamente o dia em que resolvi que iria fazer a minha própria cerveja. Em Outubro de 2011, durante a Oktoberfest, a Cervejaria Heilige fez uma brassagem demonstrativa para alguns convidados. Enquanto o Mestre Cervejeiro, Paulo Sarvacinski demonstrava todos os processos da produção, o perfume da brassagem tomava conta da cervejaria e eu me apaixonava por toda aquela mágica de transformar o grão em cerveja. Depois daquele dia comecei a montar meu equipamento.

E isso tem até certificado hehehe.



De lá para cá muita coisa mudou, hoje encontramos cerveja artesanal em Supermercados, nos melhores restaurantes e até em casas especializadas, acreditem, na época era um milagre achar bons rótulos em qualquer lugar na cidade.
A Heilige mostrou que nasceu para ser gigante e esse ano foi eleita a cervejaria do ano pela South Beer Cup e com o brew pub apresenta o mundo das cervejas artesanais para novos consumidores diariamente. 
Henrique Dopke saiu das panelas homebrewer para lançar a Cervejaria HBier, sendo a segunda micro cervejaria em atividade de Santa Cruz do Sul, com excelentes rótulos e ministrando cursos de produção caseira vem aumentando o número de cervejeiros na cidade.
Fundamos a CerVale, uma associação de cervejeiros que mensalmente desenvolve inúmeras atividades e já conta com quase 100 cervejeiros associados. 
Santa Cruz ganhou o Festival da Cerveja Gaúcha que se firmou como o maior festival de cerveja artesanal do Rio Grande do Sul e um dos maiores do país.
E a minha cerveja? Bem, eu sigo firme e forte com a Franke Bier produzindo e criando receitas. 
O ano de 1015 foi muito especial, pois pela primeira vez participei de um concurso de cervejas, o Concurso Nacional de Cervejas Artesanais das AcerVas. Com 700 cervejas participantes e 17 categorias, inscrevi apenas duas cervejas e ambas foram muito bem, a Franke Bier Red Ale ganhou certificado de Bronze do BJCP (Beer Judge Certification Program) e a Virgínia, cerveja que leva tabaco na receita, ganhou certificado de Prata e medalha de Bronze, ou seja, foi eleita a terceira melhor cerveja do concurso na categoria.Isso foi notícia em jornais, sites, blogs. Ela conquistou o paladar de muita gente pela sua complexidade e embarcaram amostras para os EUA, Suécia, Espanha e em breve algumas estão embarcando para Alemanha. O #deGusta Franke Bier esta a cada edição melhor, criei o blog para compartilhar algumas idéias, que eu sei, anda um pouquinho parado.
Em relação a Franke Bier muitas novidades estão por vir!!
Cabe aqui agradecer a todos que me apoiam, família, amigos, confrades cervejeiros. 
Agradecer os que apoiam a cerveja artesanal, os produtores locais e posso afirmar com muita certeza que tudo isso é só o começo. 
Viva a revolução cervejeira, viva a cerveja de verdade!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Cerveja com Fumo e medalha de Bronze


Santa Cruz do Sul é um dos principais núcleos da colonização alemã do Rio Grande do Sul. Na cidade acontece a maior festa germânica do Estado, a Oktoberfest. 
Ainda é a casa do Festival da Cerveja Gaúcha, evento que reúne as melhores cervejarias artesanais do Rio Grande do Sul.
Também conhecida como Capital Mundial do Fumo, onde as principais empresas do setor estão presentes na cidade. Milhares de famílias se dedicam a produção do tabaco, sendo esse o principal produto agrícola. 85% do fumo produzido e processado na cidade é destinado à exportação, colocando Santa Cruz do Sul, com aproximadamente 125.000 habitantes, entre as cidades que mais arrecadam ICMS.
Estima se que no Brasil 183 mil famílias vivem da cultura do tabaco e o país é o maior exportador de fumo do mundo.

Buscamos na cerveja homenagear os moradores da cidade, todas as famílias que trabalham com tabaco e todas as empresas fumageiras instaladas em santa Cruz do Sul, que geram milhares de empregos, riquezas e desenvolvem inúmeros programas sociais e ambientais.

A Franke Bier Virgínia é uma cerveja de alta fermentação, forte, com 8,5% de álcool, cor negra, espuma de média formação e consistente. Foi maturada em carvalho francês durante 40 dias.
 
Para termos um Terroir de Santa Cruz do Sul utilizamos na receita dessa cerveja folhas de tabaco orgânico da variedade Virgínia de um produtor local.

Franke Bier Virgínia - Cerveja com tabaco medalha de Bronze no X Concurso Nacional de Cervejas Artesanais
Foi um grande desafio produzir essa cerveja, foi praticamente um ano só desenvolvendo a receita. Com o blend de maltes e lúpulos definidos era hora do fumo entrar na receita.
Quando fiz o curso Técnico em Agropecuária meu estágio curricular foi numa empresa fumageira na área de Pesquisa e Desenvolvimento, isso me ajudou a definir como usar o fumo na receita. Precisava de um fumo orgânico livre de agroquímicos que poderiam trazer características indesejadas para a cerveja.


Nessa busca entrou meu amigo de longa data, Lucas Rangel Rosa Correa, que também estudou comigo e que trabalha dando assistência técnica a produtores integrados a Souza Cruz.

Foram inúmeros testes até definir como seria a receita e no final a cerveja ficou exatamente como eu havia imaginado.

Tabaco Virgínia como ingrediente para a cerveja.


De 04 a 06 de Junho de 2015 Porto Alegre sediou o X encontro Nacional das AcervAs e junto aconteceu o X Concurso Nacional de Cervejas Artesanais. Concurso homologado e com as diretrizes do Beer Judge Certification Program, com juízes certificados pelo BJCP. 





O maior objetivo era após o concurso receber os relatórios dos jurados e saber como a cerveja foi e onde podemos melhora-la. Sabia que era boa, mas não criei muita expectativa em receber medalha até por que a receita foi totalmente criada e foi difícil até classifica-la para o Concurso.

Ao todo eram 700 cervejas de todo o Brasil concorrendo em 17 categorias e ela se enquadrou justamente numa das categorias mais difíceis (BJCP - 23A Specialty Beer). 

Para minha surpresa a Franke Bier Virgínia ganhou Medalha de Bronze.

Fiquei muito feliz com a cerveja e extremamente contente e surpreso com o resultado do Concurso. A receita foi totalmente criada, pensando em fazer uma cerveja que fosse complexa, mas que impressionasse quem tomar, assim como Santa Cruz do Sul impressiona seus visitantes.

Nesse momento quero agradecer a minha mulher Jessica Regert, minha filha Sthéfanie (que me inspira para tudo). 
A dona da medalha posando para foto

Toda minha família, especialmente meu pai Liberato, minha mãe Isolde e meus irmãos. 

Preciso agradecer ao Lucas pela ajuda com o tabaco.

Os cervejeiros: 
Marcos Kenner (Kenner Craft Beer);
David Redmaerski Junior (RedCor); 
Ilceu Dimer (Bodebrown);
Paulo Sarvacinski (Cervejaria Heilige); 
Gustavo Eidt (Hexerei) pelas dicas e trocas de experiências.

A todos os amigos da CerVale e especialmente a Cervejaria Heilige, grandes parceiros que cravaram Santa Cruz do Sul no mapa das boas cervejas.





Um grande abraço e agora vou responder as centenas de mensagem que recebi quando o resultado foi anunciado. Posteriormente farei um Post para falar apenas sobre o X Encontro Nacional das AcervAs. 




Muito obrigado a todos!!


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Vídeo - Minha primeira brassagem

De 14 a 20 de Abril de 2015 aconteceu o 1º Congresso Nacional da Cerveja (CONCERVEJA). Um evento Online que reuniu alguns dos maiores especialistas em cerveja do Brasil.

Para entendermos a grandiosidade do evento vão alguns números:
7 Dias de conteúdo;
22 Palestras gratuitas com alguns dos Maiores Especialistas em Cerveja do Brasil e do Mundo;
2.273 Pessoas assistindo ao vivo uma palestra Online;
1.106 Expectadores por palestra em média;
5 Continentes - Audiência em todos os cantos do Mundo.

Ainda durante o Congresso falei para o idealizador e organizador do evento Daniel Dinslaken que só entenderíamos a grandiosidade do CONCERVEJA após ele terminar.
O nível das palestras, com temas para cervejeiros experientes, entusiastas e até para pessoas com pouco conhecimento, mas que buscam informações para conhecer mais sobre cerveja, ou mesmo para começar a fazer sua própria cerveja.

Volto a parabenizar o Daniel e toda a equipe do CONCERVEJA pela iniciativa de fazer aqui no Brasil o maior congresso Online Mundial sobre cerveja. Foram dias de muito aprendizado onde quem mais ganhou foi justamente a cultura cervejeira do Brasil.

Durante o Congresso rolou uma promoção onde o Daniel pediu para os cervejeiros mandar um vídeo de 3 minutos falando como foi a primeira produção de cerveja. Receita escolhida, o que deu certo, o que deu errado, curiosidades, etc.

Quem mandasse o vídeo iria concorrer a alguns prêmios.

Eu só soube da promoção justamente no último dia que poderia enviar o vídeo. Resolvi gravar, não pensando nos prêmios, que eram bacanas, mas por querer compartilhar minha experiência com quem está pensando em fazer cerveja.
Sem edição, com câmera digital normal, sem texto decorado, sem captação auxiliar de audio, sem maquiagem (hehe). Ou seja, gravei e na mesma hora mandei. E não é que tive a sorte de ganhar uma placa decorativa de metal para colocar na parede. Posteriormente coloco aqui uma foto do prêmio que ganhei ao enviar o vídeo.

Agora trago aos amigos do Blog o vídeo para que todos saibam as curiosidades de como foi minha primeira brassagem.



sexta-feira, 24 de abril de 2015

Destino Cervejeiro - Visita a Bodebrown

No começo do ano passei alguns dias trabalhando em Maringá, a terceira maior cidade do estado do Paraná. Uma cidade projetada, com avenidas largas, organizadas, com rotatórias e muitas árvores. É considerada uma das cidades mais arborizadas do país.
Queria ter aproveitado a oportunidade para conhecer e tomar algumas cervejas com o cervejeiro David Redmerski Junior, o qual conheci através de internet e já batemos muito papo sobre cerveja. Porém a agenda estava lotada todos os dias e teve que ficar para uma próxima.
O detalhe é que o David é cervejeiro caseiro e fez uma de suas receitas em parceria com a Cervejaria Araucária. A cerveja foi a RedCor Ryequeoparta, uma Black IPA com 110 IBUs.
O resultado dessa cerveja colaborativa entre em cervejeiro caseiro e uma micro cervejaria foi nada mais, nada menos, que uma medalha de Ouro Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenau e ainda foi a terceira cerveja com maior pontuação de todas que foram premiadas no festival, ou seja, a terceira melhor cerveja do Brasil. E pensar que talvez eu poderia ter tomado ela em primeira mão....affff

Para retornar para o RS eu faria uma escala no Aeroporto de Curitiba, na verdade não seria uma escala, seria um chá de cadeira por longas horas.

Pensar em Curitiba para mim é pensar em Bodebrown.

Olhei para o relógio e daria tempo suficiente para sair e conhecer a Bodebrown. Mandei uma mensagem para o Samuel Crhistophe Cavalcanti Cabral, proprietário da cervejaria que disse que eu poderia ir, embarquei num táxi e fui.

Sempre que vamos conhecer um lugar novo existe aquele expectativa de "como será...".

Ao sair de uma avenida movimenta e entrar numa ruazinha menor, de pouco movimento, sabia que estávamos chegando. Até que eu falei para o taxista: "Pode me deixar ali naquela kombi estacionada". 
Não era uma simples kombi estacionada na rua.

Era a KombIPA estacionada em frente a Bodebrown.


Fui recepcionado pelo Gerente e Mestre Cervejeiro Sr Ilceu Dimer que disse que não poderíamos fazer a visitação normal na cervejaria pois ele estava no meio da brassagem de uma Tripel, mas se quisesse poderia acompanha-lo. Eu disse que conhecia todos os processos e que seria muito melhor acompanhar a produção.


Cozinha da Bodebrown




O dia estava quente e ficamos na sala de brassagem da Bodebrown batendo papo. O mosto foi transferido para a panela de fervura e ficou ainda mais quente, muito quente. Porém foi um dos bate papo sobre cerveja mais agradáveis que já tive.






Fervura da Tripel


O Sr Dimer é uma pessoa extraordinária com enorme experiência, que gosta de compartilhar conhecimento e é apaixonado pelo que faz. Esse ano vai completar 37 anos trabalhando com cerveja, dono de mais de 50 medalhas e prêmios em torneios de cerveja pelo mundo, faz consultorias e treinamentos para inúmeras cervejarias.







Sr Ilceu Dimer - Gerente e Mestre Cervejeiro da Bodebrown
Impossível não se encantar com suas histórias vividas pelo longo da carreira.


Sala de maturação em barris


Aproveitei a oportunidade para pegar algumas dicas de cervejas maturas em barris de madeira reutilizados da indústria vitivinícola, o que tem virado uma especialidade da Bodebrown.

Imperial Stout maturando no barril desde 06/03/2014

Para quem não conhece, a Bodebrown é uma cervejaria-escola fundada por Samuel Cavalcanti. Infelizmente o Samuel não estava na cervejaria no momento que cheguei e não tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente, embora seu trabalho e engajamento com a cultura cervejeira já acompanho a bastante tempo.
Junto a cervejaria tem uma loja, onde além das cervejas tem a venda insumos para fabricação caseira de cerveja, insumos que vão das panelas, baldes fermentadores a malte, lúpulos e levedura. Tudo que precisa para produção de cerveja caseira tem a venda na loja de maneira bem fracionada.
Poderia me estender por longos parágrafos falando sobre o Samuel e a Bodebrown, mas vou compartilhar com vocês um excelente vídeo da Debruer Tv que retrata muito bem o que eu gostaria de dizer.

Bem, minha vontade era passar a tarde toda ali e congelar o tempo, mas passou voando enquanto conversava com Sr Dimer e eu não poderia correr o risco de perder meu voo pois teria uma reunião no outro dia pela manhã. Tratei de voltar para o aeroporto, não deu tempo nem de degustar cerveja, mas ainda consegui chegar com certa antecedência para meu voo.

Claro que depois de visitar uma cervejaria, falar sobre cerveja e acompanhar a produção de uma Tripel eu estava com sede. Em aeroportos encontrar um cerveja de verdade é quase impossível, mas me surpreendi com o aeroporto de Curitiba, com o Stoppen Beer para ser mais específico. Um lugar com dezenas de rótulos de cervejas artesanais e importadas, pratos com sugestão de harmonização com cerveja por estilos e alguns rótulos on tap.





Pedi uma Way American Pale Ale na pressão e novamente tive vontade de congelar o tempo e até torci para que meu voo atrasasse, mas para o meu "azar" foi pontual.

Ficou apenas o sentimento de que será uma parada obrigatória em todas as passagens pelo aeroporto de Curitiba e ser uma pena não ter um Stoppen Beer em mais aeroportos do Brasil.

 Abraço e até o próximo Destino Cervejeiro














terça-feira, 14 de abril de 2015

Franke Bier - Tornado Alley (APA)

2015 começou movimentado e corrido, especialmente os meses de fevereiro, março e abril.
Não é uma desculpa, mas é um dos motivos de não ter feito nenhum post recentemente. Porém não abandonei o blog, durante esse tempo escrevi algumas coisas só não postei ainda. Em breve teremos um post Destino Cervejeiro com todos os detalhes de uma visita que fiz a Cervejaria e Escola Bodebrown, uma viagem quase nada cervejeira pelo Nordeste e mais alguns Mitos Cervejeiros.

No dia 22/03 foi aniversário da matriarca da família Franke.



Minha avó Ilory Franke comemorou 87 anos juntando todos os filhos, genros e noras, quase todos netos, bisnetos, familiares e amigos.
Fácil imaginar que foi uma grande e bela festa.




Escolhi essa data para inaugurar uma receita nova, a Franke Bier Tornado Alley, e esse post é para falar dessa cerveja.
Gosto das histórias e curiosidades por traz dos rótulos e das cervejas e a Franke Bier Tornado Alley tem suas curiosidades.
A receita criei basicamente com insumos que tinha sobrando e apenas no blend de malte que farei correções para as próximas levas.

APA é a sigla para American Pale Ale, uma adaptação americana para o estilo India Pale Ale (IPA). Em Escolas-cervejeiras vimos que as IPAs surgiram no começo do século XVI, onde para não estragar em longas viagens de navio, os Ingleses faziam a cerveja com uma quantidade extra de lúpulo, que por ser um conservante natural garantiam a qualidade da cerveja por mais tempo. Já a Escola Americana se caracteriza por cervejas extremas, releituras de estilos clássicos, mas carregados de lúpulo e estilos novos onde o show fica por conta dos aromas e amargor dos lúpulos.
Agora tente imaginar a APA.... Definitivamente é uma cerveja lupulada e EXTREMA.
Meu objetivo era fazer uma cerveja que o show seria por conta dos lúpulos. Para isso utilizei um blend suave de maltes e diferentes técnicas de lupulagem como First Wort Hopping, Late Hopping, Whirpool Hopping e finalizei com Dry Hopping. Foram 3 tipos diferentes de lúpulos, todos americanos.

E por que Tornado Alley?
Seguindo no pensamento de coisas extremas, talvez o evento meteorológico mais extremo da natureza sejam os tornados.
Tornado Alley é o termo para designar a região dos EUA que mais sofre com a incidência de tornados. A localização abrange vários estados que frequentemente são atingidos pelo fenômeno.

Ok, só isso? Não, isso ainda não explica o nome. Só mais um pouco!!!

Enquanto fazia minha Franke Bier extrema eu não tinha nome para ela ainda. Estava no meio do processo e tudo correndo dentro do planejado.
Quando faço a cerveja, tiro o dia apenas para isso, então minha mulher foi trabalhar de moto. A tardinha, quando eu iria iniciar a fervura do mosto, ela estava saindo do trabalho.


Meu telefone tocou e era ela ligando para dizer que haviam roubado a moto do estacionamento.

Pesei os lúpulos rapidamente, deixei todos separados, peguei o carro e corri com ela para a polícia.
Enquanto fazia o Boletim de Ocorrência eu controlava o tempo de fervura. Nas adições de lúpulo que ligava para minha irmã que instrui para cuidar a fervura.

Após o B.O. voltei para a produção, encerrei a fervura, fiz o Whirpool Hopping, comecei o resfriamento do mosto, deixei novamente minha irmã controlando e fui com um amigo para a periferia da cidade procurar a moto.

Literalmente a cabeça estava em dois lugares, na moto que haviam roubado e eu estava procurando num lugar nada amistoso, correndo até risco pois estava negóciando "regaste" com criminosos e a cabeça também estava na brassagem da minha primeira APA, que certamente seria inesquecível em virtude desse episódio.

Ai que me veio a ideia do nome.

A moto era uma Honda Tornado e na mesma hora fiz a analogia do nome com o fenômeno extremo praticamente típico americano, os Tornados.
Uma cerveja inspirada na escola americana, com lúpulos americanos e com características extremas poderia se chamar Tornado.
Alley é uma pequena referência a leveduras de alta fermentação que utilizei, mais conhecidas com Ale. Fechou todas - Franke Bier Tornado Alley


Lúpulo Amarillo utilizado na receita


Apesar de todos os imprevistos ao tomar o primeiro gole da Franke Bier Tornado Alley eu esqueci de todos os contratempos que tive e a cerveja ficou espetacular. Já estou programando e segunda leva, mas dessa vez sem eventos extremos e inesperados, por favor!!




Franke Bier Tornado Alley (American Pale Ale) - Cerveja de alta fermentação, não filtrada com coloração âmbar claro com leve turbidez decorrente do Dry Hooping. Espuma branca, cremosa e consistente.










Aroma cítrico, frutado e herbal. Na boca um leve dulçor dos maltes que logo é substituído por um delicioso amargor moderado que remete a maracujá. Excelente drinkability.







terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Budweiser declara guerra a cerveja artesanal e a resposta

No último final de semana milhares de pessoas assistiram a grande final da NFL, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos.
A popularidade do futebol americano tem crescido muito, a final foi transmitida para 171 países em 30 idiomas diferentes.
Nos Estados Unidos a final do esporte mais popular na terra do Tio Sam bateu recorde de audiência, a partida foi assistida por 21,8 milhões de pessoas pela ESPN.

Tão disputado quanto o jogo, os espaços publicitários e os comerciais dos intervalos costumam gerar grande repercussão. Seja pelas mega produções que os publicitários fazem, seja pelo time de estros e estrelas escalados para os comerciais, pela criatividade das campanhas e até pela fortuna desembolsada.

Nas inserções de 30 segundos no intervalo os espaços foram comercializadas por R$10,8 milhões.

A Budweiser sempre está no time de empresas que fazem esse investimento. Em 2013 emocionou a todos com um comercial que mostrava a amizade entre um cavalo e seu criador, na sequência um cachorrinho entrou na história. Mas esse ano a estratégia foi outra, resolveram atacar as cervejas artesanais.

Recentemente a Budweiser, que sempre foi a "queridinha" dos americanos, foi ultrapassada em volume de consumo pelas cervejas artesanais.




Basicamente o futebol americano é um jogo de conquista de território. Por estar perdendo mercado talvez os publicitários da Budweiser viram ai uma oportunidade de atacar quem mais vem ganhando território, mercado e conquistando consumidores.

Imediatamente o comercial criou polêmica entre os cervejeiros, onde a grande maioria repudiou o comercial, que chega a ironizar os consumidores. Houve quem defendesse que a marca apenas se firmou junto ao seu público consumidor.
Eu acho que a campanha mostrou todo o desespero da Budweiser.

Se estivesse bem poderia falar apenas de sua cerveja e não atacar outras cervejas e consumidores.
Assista o vídeo abaixo e tire suas próprias conclusões.


Não é a primeira vez que a gigante ataca as cervejas artesanais.
Vejam o comercial abaixo onde um cara vai ao mercado comprar cerveja, quando ele escolhe um pac de cerveja artesanal aparece um cavalo que reclama da escolha, ai o homem pega o de Budweiser e fica tudo bem.
Logo lembrei do ditado: "Quem gosta de milho é galinha". Acho que nesse comercial o ditado pode ser aplicado ao cavalo, ou o ditado seria aplicado ao homem mesmo?

Tenho certeza que a resposta das cervejas artesanais vai ser na qualidade e a dos consumidores vai ser na escolha por tomar uma cerveja que ofereça muito mais que um simples beber cerveja.

Atualizado:
Logo após uma semana que fiz esse post, volto aqui para atualizar com um vídeo que a Hop Stories fez como resposta das cervejas artesanais ao comercial.
O vídeo é exatamente no mesmo formato do comercial da Budweiser, uma resposta direta.
Foi muito grande a repercussão dessa ação da Budweiser mas creio que devem ter se arrependido. Na página oficial da gigante no Youtube do total de "likes" no vídeo 87% são negativos. Imaginando que existem um departamento do Marketing que pensou muito nessa campanha, o tiro saiu pela culatra. Possivelmente nunca um comercial da NFL, de tamanho investimento e de qualquer empresa teve uma repercussão tão negativa.
Assista resposta da Hop Stories abaixo ja conta com 98% de "likes" positivos.




terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mitos e confusões: Cerveja x Chopp (1)

Muitos são os fatores que contribuem para que a cerveja brasileira tenha tantas confusões, informações incorretas, mitos e desinformação. Em uma pequena série (Mitos e confusões) vou tentar elucidar alguns que considero os principais mitos e dúvidas relacionada a cerveja.
Nesse primeiro post vou abordar uma dúvida muito comum do público em geral e muitas pessoas ja me perguntaram:

Qual a diferença entre cerveja e chopp?

NENHUMA, só no Brasil existe essa diferenciação. O processo de produção e os ingredientes são os mesmos. A confusão começou como uma herança dos imigrantes alemães que pediam um chopp no balcão do bar. A descrição correta é Schopp e é uma medida alemã que corresponde a 300ml, ou seja, ao pedir um chopp o alemão estava pedindo um copo de cerveja de 300ml servida do barril. Se você for na Alemanha e pedir um chopp o garçom vai ficar olhando e vai perguntar de qual cerveja.
Com o tempo não só os imigrantes alemães, mas todas pessoas pediam chopp quando queriam tomar uma cerveja direto do barril. Então o governo através do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) criou uma regra:

A cerveja em barril, não pasteurizada seria chamada de chopp, já quando engarrafada (ou lata), que passa pelo processo de pasteurização, seria chamada de cerveja.

O processo de Pasteurização consiste em aquecer as garrafas e "matar" as leveduras responsáveis pela fermentação e o CO² deixando assim a cerveja biologicamente estável, podendo ficar em temperatura ambiente, nas gandulas dos supermercados e com um prazo de validade maior.

A cerveja engarrafada ou em barril que não passa pelo processo de pasteurização precisa ficar em ambiente refrigerado. Em temperaturas baixas as leveduras presentes na garrafa entram em estado de dormência. Se ficarem em temperatura ambiente e ainda existir "alimento" para essas leveduras elas continuarão trabalhando e aumentando a pressão na garrafa até que a mesma exploda ou a cerveja fique com uma carbonatação excessiva.

A diferença então seria a pasteurização?

Seria, mas não é.

Confuso? A confusão fica melhor ainda agora que as grandes cervejarias fazem pasteurização até nos barris, então a diferença já não existe mais.



Para tornar a coisa mais divertida é comum ver cervejarias vendendo chopp em garrafa, ainda mais cara do que sua versão em cerveja pasteurizada.



Vemos garrafas que no rótulo diz "não pasteurizadas" mas estão em temperatura ambiente em prateleiras dos supermercados e lojas especializadas.



Podemos ver a da palavra Chopp no rótulo de muitas cervejas engarrafadas como por exemplo na garrafa da cerveja Brahma. Puro marketing.




Como eu disse acima, essa diferenciação só ocorre no Brasil, em outros países se especifica como você quer a sua cerveja. No barril (por exemplo Draft Beer nos EUA ou Vom Fass na Alemanha ) ou em garrafa (Bottle Beer ou Bierflaschen).

Mas alguém pode dizer: "mas a cerveja no barril é melhor". Sim, realmente é muito melhor. É melhor o sabor, o aroma e até a aparência. Geralmente é uma cerveja mais fresca, da uma sensação de ser mais leve e fácil de tomar. A pasteurização mata as leveduras em suspensão na cerveja e mata também parte do sabor e aroma.

Como devemos chamar?

Muita coisa esta mudando no cenário cervejeiro do Brasil, recentemente o MAPA reuniu representantes de grandes cervejarias, micro cervejarias, cervejeiros caseiros e outros especialistas para definir uma revisão dos Padrões de Identidade e Qualidade das cervejas no Brasil. Com tanta coisa que precisa mudar, acredito que essa nomenclatura nem precisa entrar no texto, mas eu considero errado chamar de chopp a cerveja servida em barril então eu chamo de cerveja na pressão. Acredito que seja o termo que melhor se adapte a nossa realidade.




Alguns eventos e algumas micro cervejarias tem a consciência de mostrar para os consumidores que essa diferença, na verdade, não existe.


Como exemplo cito o Festival da Cerveja Gaúcha que foi um grande sucesso de público e cervejas com a presença das melhores micro cervejarias do Rio Grande do Sul. Em todas as mídias utilizadas para a divulgação do evento deixavam claro que seriam mais de "90 cervejas em barril". O comercial que rolou na TV você pode assistir clicando aqui.







O mais importante de tudo é sabermos que cerveja é cerveja. Seja ela enlatada, engarrafada ou embarrilada. Que seja boa e que a fonte nunca seque.

No próximo Mitos e confusões vou estar falando sobre o mito que gira em torno da água na produção de cerveja. Até breve.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Escolas cervejeiras

Quando vamos falar nas origens das cervejas de qualidade obrigatoriamente precisamos passar pelas principais "escolas cervejeiras", que são na verdade países que desenvolveram características específicas em suas cervejas. Essas características vão de variedades de insumos locais (especiarias, frutas, variedades locais de lúpulos, leveduras) e até mesmo eventos e Lei que define os ingredientes.

Hoje podemos destacar 4 principais escolas cervejeiras:

A escola Alemã, onde através da Lei da Pureza de 1516 (Reinheitsgebot) ficou determinado que só se poderia produzir cerveja com 3 ingredientes (água, malte e lúpulo) na época ainda não se dominava o processo de fermentação, posteriormente foi incluído a Levedura como ingrediente permitido.
Vigente até os dias de hoje, apenas 16 anos mais nova que o descobrimento do Brasil, a Lei de Pureza alemã constitui um dos mais antigos decretos alimentares da Europa.
Essa talvez seja a escola mais seguida pelas micro cervejarias artesanais, é fácil encontrar cervejas que estampam com orgulho no rótulo "Produzida de acordo com a Lei de Pureza da Alemanha". O que nem sempre é sinônimo de qualidade, mas a chance da cerveja ser ruim é muito pequena.
Quando algum amigo que esta querendo conhecer cerveja além das comerciais e me pergunta quais comprar eu sempre recomendo começar por alguma puro malte, que siga a Lei de Pureza.
Por ser aceito apenas os 4 ingredientes básicos na produção, é uma escola muito rígida. Os alemães tiveram que desenvolver inúmeras técnicas e muita pesquisa em cima da cerveja, insumos tecnologia nos equipamentos para fazer cervejas fantásticas com diferentes variedades, sabores, aromas, cores e características com apenas os quatro ingredientes permitidos.
Uma característica muito legal da Alemanha é que cada cidade tem sua cervejaria, por menor que seja, sempre tem uma cervejaria local, isso quando não é mais que uma e até dezenas. É um povo defende e apoia as cervejarias locais, entende, gostam e consomem muita cerveja, celebram a cerveja diariamente nos biergartens e a maior festa cervejeira do mundo é alemã, a Oktoberfest.
Se fizer uma pesquisa no Google de imagens para a palavra "Alemão" aparece o alemão de traje típico tomando cerveja.
Podemos citar como clássicos dessa escola os estilos German Pils, Bohemia Pils, Helles, Weizen, Kölsch



A Escola Inglesa se caracteriza por ser muito difundido as cervejas de Alta Fermentação (Ale), são cervejas mais complexas, mais amargas, secas e costumam ser menos carbonatadas e bem mais alcoólicas.
A escola é tão antiga quanto a alemã, porém passou por grandes mudanças. Antes do século VX  as cervejas eram doce, forte e muito alcoólicas, uma herança do hidromel, que era a bebida mais popular nas Ilhas Britânicas na idade média e passaram a tomar cerveja. A partir do século XV vem a segunda grande mudança: Passaram a utilizar o lúpulo nas cervejas, que deixaram de ser doce e passam a ser cada vez mais amargas.
No século XVI começa o desenvolvimento de colonias inglesas pelo mundo, a cerveja era levada em navios e precisava resistir por longo tempo em barris nas viagens, num tempo onde não havia refrigeração. A solução era colocar grande quantidade de lúpulo na cerveja, que por ser um conservante natural garantia a qualidade da bebida durante as longas cruzadas marítimas.
Oficiais do Exército Britânico que residiam na Índia durante o período colonial eram abastecidos com essas cervejas, assim nascia o estilo India Pale Ale.
Na segunda metade do século XX as grandes cervejarias e suas Lagers começaram a dominar o mercado com cerveja barata. Pequenas cervejarias começaram a fechar e até estilos tradicionais estavam desaparecendo. Surge então um movimento de consumidores, liderado por 4 amigos que, revoltados com a falta de qualidade das cervejas criam o Campaing for Real Ale CAMRA (Campanha pela Ale de verdade). Um movimento que rapidamente conseguiu milhares de adeptos, com muita pressão politica, boicote a cervejarias e pubs que haviam abandonado as Ale tradicionais e através de pressão conseguiram do governo incentivos fiscais aos produtores artesanais e conseguiram mudar o cenário cervejeiro.
O CAMRA é considerado o movimento de consumidores mais bem sucedido na Europa e hoje conta com mais de 150.000 membros em todo o mundo. Fomentam a cultura cervejeira através de eventos, concursos cervejeiros, certificação para pubs e cervejarias, dentre outras ações.
Como estilos da escola podemos citar a Stout, Porter, India Pale Ale, Barley Wine, Brown Ale.



A Escola Belga, talvez seja o berço dos cervejeiros mais criativos.
Considerada por muitos o paraíso das cervejas.
São dezenas de estilos próprios e a utilização de inúmeras especiarias na cerveja, como por exemplo o coentro e cascas de laranja na WitBier. Utilizam muita fruta também, especialmente nas cervejas de fermentação espontânea, onde a cerveja é fermenta por leveduras selvagens em tanques abertos, as chamadas Lambic.
As Lambics merecem uma atenção especial, em qualquer parte do mundo se você for visitar uma cervejaria vai encontrar um ambiente extremamente limpo e controlado, com tanques de inox que facilitam a a higienização e controle anti-bacteriano. Já na Bélgica, nas cervejarias que produzem as cervejas Lambics, ficam com as portas e janelas escancaradas, o ambiente é úmido, com mofo nas paredes, insetos, teias de aranha e a cerveja em tanques abertos, só esperando as leveduras selvagens fermentarem o mosto. É uma cerveja selvagem, com muita acidez, um toque amadeirado e vínico. Ganham suavidade quando adicionam frutas como cereja (Krieg) ou framboesa (Framboise) ou ganham características e eferverscência que remetem ao espumante quando recebem a mistura de Lambics com diferentes idades (Gueuze).
É preciso destacar também os mosteiros da ordem trapista onde os monges produzem verdadeiras obras primas como as Tripel, Dubbel, e Quadruppel.



Por fim chegamos na Escola Americana que até pouco tempo era caracterizada pela produção de larga escala, onde as grandes indústrias dominavam, compravam ou quebravam as menores. É a produção da cerveja barata, leve, utilizando milho e arroz para substituir o malte. O estilo é American Light Lager, essa cerveja foi exportada para todo o mundo e foi o estilo adotado no Brasil. Não, a cerveja que o brasileiro toma não é Pilsen, é American Light Lager. Essa foi a pior contribuição do país para o mundo da cerveja.
Mas tudo começou a mudar em 1978 quando o Presidente Jimmi Carter sancionou uma lei que derrubava o veto de produção caseira de cervejas. Nascia assim um movimento cervejeiro que iria revolucionar o país, o movimento batizado de Craft Beer que rompeu todos os paradigmas cervejeiros. Reinventaram e inventam estilos, não se prendem a características do estilo. São ousados e criativos, não existe regras. Mas certamente o que mais caracteriza a Escola Americana são as cervejas extremas, carregadas de lúpulo.
E as American Light Lager?
Bem elas continuam por aí, mas vem amargando uma queda inédita no consumo.
A Budweiser que sempre foi a queridinha dos americanos até década de 90, onde aparecia discretamente e gratuitamente em grandes produções de Hollyhood, chegando a ser considerada patrimônio e simbolo da cultura capitalista dos americanos, foi recentemente ultrapassada em volume pelas cervejas artesanais.
Se podemos classificar os cervejeiros da escola Belga de criativos, o que dizer dos americanos? São criativos, ousados e obstinados por cerveja.
Alguns defendem que não existe uma escola americana, que na verdade eles "apenas" reinventaram estilos. Eu discordo pois eles criaram cervejas com características únicas e o grande trunfo foi desenvolver variedades de lúpulos em solo americano com características bem particulares, extremamente aromáticos e amargos. Eu diria que é o terroir das cervejas americanas.
É fácil identificar uma cerveja com lúpulos americanos.
São vários estilos criados e recriados pelos americanos, mas experimente e se surpreenda com uma Black India Pale Ale (Black IPA) ou se encante com uma American India Pale Ale (APA).

Tudo isso era uma introdução para falar sobre o Estilo Brasileiro de Cerveja, mas o post acabou ficando longo e vamos deixar para outra hora. Vou ir tomar uma cerveja agora, Ein Prosit,



quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Confraternização CerVale RioPardo

Depois de alguns dias sem postagens no Blog em virtude das festas de final de ano e férias chegou a hora de retomar.
Primeiramente quero desejar aos leitores desse humilde Blog um feliz 2015, cheio de saúde, realizações e claro, muita variedade e qualidade nas cervejas para o ano novo.

O ano começou bem, com uma brassagem de uma cerveja nova, uma receita que criei com técnicas bem diferenciadas e com algumas particularidades. Mais alguns dias vai para o tanque de maturação e assim que estiver pronta falo sobre ela.

Antes dos novas postagens de 2015 preciso falar sobre a confraternização de final de ano da CerVale RioPardo.
Recebidos em clima de Natal

A CerVale RioPardo é uma associação sem fins lucrativos, filiada a ACerva Gaúcha, que nasceu para congregar e integrar os cervejeiros artesanais da região e divulgar a cultura cervejeira.
Inúmeras foram as ações no decorrer do ano de 2014, como excursão, visita a cervejarias, palestra, reuniões, brassagens coletivas, degustação de cervejas, participação de eventos e a realização do encontro inter-regional de cervejeiros.

Pinheiro cervejeiro
Para comemorar todas as realizações e fechar com chave de ouro fizemos a nossa confraternização de final de ano dia 21/12/2014 na propriedade da família Eidt no interior de Venâncio Aires.
A programação era degustar cerveja dos associados, assar um costelão e fazer um workshop de flavors e off flavors na cerveja.

O evento estava agendado a meses e conforme se aproximava eu ficava cada vez mais apreensivo. Uma forte onda de calor estava sobre o RS, a meteorologia e os canais de notícia estavam prevento forte temporal para a data, queda de granizo, vento acima dos 100km/h e muita chuva.


Ao sair de Santa Cruz do Sul de manha cedo fomos brindados com um dia totalmente ensolarado e muito quente, prontamente esqueci da previsão do tempo.
Será que erraram tanto assim na previsão do tempo?

Workshop: Não basta fazer cerveja, é preciso dominar os processos, saber as variáveis e conhecer as cervejas.
Muitos são os aromas e sabores que procuramos ter nas nossas cervejas, os chamados flavors. Em contra partida muitos são os problemas que podem acontecer durante os processos e trazer sabores indesejados a cerveja, o que chamamos de off flavors.
Para o cervejeiro, conhecer os defeitos que podem acontecer na cerveja e saber como evita-los é fundamental. Porém essa não é uma tarefa fácil, requer dedicação, estudo e conhecimento.
Para desenvolver essa habilidade (creio que posso chamar assim), através da CerVale RioPardo conseguimos importar kits de flavors e off flavors direto da Flavoractiv.

Análise de flavors



O kit é constituído de cápsulas, que ao ser dissolvido em alguma cerveja neutra libera e simula esses aromas e sabores.








O kit professional é composto por 20 cápsulas e nessa primeira data fizemos a análise de 10.



É muito interessante como fica evidente as características de cada flavor ou off flavor quando a cápsula é dissolvida na cerveja.



Após afinarmos nossa capacidade de análise sensorial passamos a degustar as cervejas dos associados e como sempre as cervejas surpreenderam pela qualidade e variedades. Não lembro todas, mas teve Red Ale, Dunkelweisen, Kölsch, Weiss, Saison, Dry Stout, Pilsen, dentre outras.

Franke Bier - Red Ale



Enquanto parte do grupo participava do workshop, outros ficaram responsáveis pelo churrasco, que ficou tão espetacular quanto as cervejas que estávamos tomando.






Costelão no ponto









Fila para cair




Após o almoço e tomar algumas cervejas o desafio era atravessar a fita de Slackline que esticamos sobre a piscina.







Ou tomou pouco e sabe mesmo hehe


Muitos tentaram, mas apenas o Eduardo Overbeck (dono da fita) e o Luciano Morsch (que também tem fita) conseguiram atravessar com sucesso, embora também caíram algumas vezes.






Se não vai em pé...


A brincadeira foi divertida e rendeu belas rizadas, mas pode deixar, no próximo vou propor algum desafio com bike, ai quero ver hehe.






Ao entardecer, cerveja quase acabando, era hora de voltar para Santa Cruz do Sul. Repentinamente um forte vento começou soprar, enormes pingos de chuva começavam a bater no chão. Tivemos que organizar o que dava as pressas e de repente o céu desabou.
Pegamos um forte temporal na estrada, chegando em Santa Cruz era possível ver árvores e postes caídos, fios de alta tensão no chão, muito pontos de alagamento e muita destruição causada pelo temporal.

Ai lembrei de minha preocupação quanto a previsão do tempo, eles não erraram. Mas os deuses da cerveja cuidaram para que tivéssemos um dia fantástico de troca de idéias, conhecimento, confraternização e degustação de cervejas para só depois vir o anunciado temporal.

Quero agradecer a família Eidt que nos recebeu carinhosamente em sua bela propriedade. Impossível não se sentir em casa com uma família tão querida, muito obrigado!!

A CerVale RioPardo é feita por pessoas e pelo esforço de muitos, mas é preciso reconhecer que das inúmeras atividades desenvolvidas no decorrer do ano, grande parte do sucesso se deve ao nosso Mentor-mor Guga Eidt, que não mediu esforços para que a CerVale RioPardo sempre tivesse atividades e sempre esteve puxando o pessoal.

Infelizmente nem todos os associados puderam participar da confraternização, sentimos falta!!
O workshop terá mais turmas e outras datas.

Créditos das fotos para Luciano Morsch.

Para 2015 ja estabelecemos algumas diretrizes e um pré-calendário. Muitas atividades bacana estão por vir e sempre estarei compartilhando aqui, Ein Prosit und glückliches neues jahr.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Comida e cerveja artesanal, uma harmonização nota 10

O último post aqui no blog foi sobre os O papel, o sucesso e os desafios da Cerveja Artesanal.
Esse questionamento surgiu para um amigo que esta fazendo um trabalho na cadeira de Engenharia de Alimentos no curso de Agronomia da UFRGS e pediu minha opinião.

Agora no novo post o universo acadêmico novamente pinta por aqui.

Dessa vez foi no Curso Superior de Tecnologia em Gastronomia da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) que a cerveja artesanal apareceu.
A aluno João Zwirtes Hamester apresentou sua criação culinária para a banca avaliadora de conclusão do curso.


O prato apresentado foi "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico".


Com características que o definem como um prato da cozinha contemporânea com um toque de regionalidade, que valoriza e utiliza ingredientes de produtores locais.

A carne utilizada na receita foi marinada por 24 horas com ervas e especiarias, o purê foi elaborado com a batata Beauregard, processada com Kässchimier, zestes de casca de laranja, sal e pimenta do reino preta.
O Kässchimier é uma coalhada de queijo muito comum em regiões colonizadas por imigrantes alemães, é muito utilizado como cobertura nas famosas cucas de Santa Cruz do Sul. No prato foi incorporado ao purê, conferindo sabor e textura.

O molho foi feito a partir de um caramelo de açúcar branco, manteiga e dentes de alho. Formando um molho brilhoso e bastante aromático.
A finalização ficou por conta de crocantes pele de porco fritas, broto de beterraba e funcho.

O prato enquadra-se perfeitamente no movimento Slow food, que na tradução livre podemos dizer que significa "comer devagar".
É um movimento que iniciou na Itália em 1986 com o objetivo de promover uma maior apreciação da comida, melhorar a qualidade das refeições e uma produção que valorize o produto, o produtor e o meio ambiente.
Defende uma maior lentidão no processo de produção e degustação dos alimentos, visando um aumento do prazer proporcionado pelos mesmos, num contraste com o fast-food.

O alimento precisa ser  tão gostoso que merece ser saboreado com calma, fazendo de cada refeição uma pausa especial do dia. Que seja bom à saúde do consumidor e dos produtores, sem prejudicar o meio ambiente, nem os animais.
Que seja produzido com transparência e honestidade social e, de preferência, de produtores locais.

Talvez dentro desse conceito de Slow Food que o João teve a ideia de harmonizar seu prato com cerveja artesanal, afinal os movimentos defendem idéias semelhantes:

Os produtores de Cervejas Artesanais defendem um consumo responsável e consciente. 
O consumir utilizando todos os sentidos, de um produto que prima pela qualidade, sem utilização de produtos químicos para acelerar processos ou preservar a cerveja. 
Uma cerveja natural, feita por cervejeiros ou micro cervejarias, de forma artesanal (quase artística), com todos os cuidados e respeito que a bebida merece.

Outra possibilidade talvez tenha sido de oferecer uma experiência gastronômica completa para a banca, de um excelente prato harmonizado com uma excelente cerveja que o completasse.

O João postou no Grupo de Discussões da CerVale Rio Pardo no Facebook sua vontade de harmonizar o prato.

Achei muito legal a ideia por justamente a cerveja artesanal e a gastronomia andarem juntos.

Coisa que muitos chefs ainda não descobriram. 

A cerveja oferecendo uma gama gigantesca de estilos, aromas e sabores que proporcionam não apenas um acompanhamento, mas uma verdadeira harmonização onde os dois elementos (o prato e a cerveja) se completam, que se unem para impressionar nossos sentidos, encher nossa alma e nos dar o verdadeiro prazer da boa comida e bebida.





Logo que li as características do prato pensei na harmonização com a Franke Bier - Red Ale por ser uma cerveja mais forte, mas com o equilíbrio entre o malte e o lúpulo combina com pratos robustos, carne de porco e certamente combinaria muito bem até com o Kässchmier.
Mas a cerveja ainda estava no tanque de maturação e não tinha disponível.








Pelas especiarias, pelo toque cítrico, por ter zestes de casca de laranja imaginei em harmonizar com a Franke Bier - WitBier, uma cerveja que leva cascas de laranja e coentro na receita. Porém o porco já não combinaria muito bem, pois apesar da cerveja ter até um toque apimentado é uma cerveja leve.







A única opção que eu ainda tinha disponível é a Franke Bier - Tertúlia (Kölsch) que combina com pratos mais leves, como pratos a base de peixe por exemplo.





Então esqueci as minhas cervejas e passei a imaginar qual estilo harmonizaria com o prato como um todo e quem poderia ter a cerveja.



Não demorou para me lembrar da Dunkelweizen dos amigos cervejeiros caseiros da OverBeer, Eduardo Overbeck (filho) e Jorge Overbeck (pai).

A Dunkelweizen é um estilo meio que coringa para harmonização com pratos, especialmente a base de carnes fortes.

Os Overbeck tinham a cerveja disponível e toparam o desafio.





E o resultado?

Bem eu não sei se ficou bom pois não tive a oportunidade de degustar esse prato e fazer essa harmonização, mas acho que o João ainda vai nos proporcionar esse prazer hehe.

O que sei é que ele foi APROVADO pela banca com nota 10!!!

Basta ver as fotos que ja temos certeza que ficou fantástico.


João, parabéns pelo prato, parabéns pela aprovação da banca e parabéns por se propor a fazer essa harmonização com uma cerveja artesanal feita aqui na cidade.
De forma geral a maioria dos profissionais da gastronomia precisam conhecer a cerveja artesanal, sua capacidade de harmonização, que vai de saladas até sobremesas e você já tem essa visão, que pode apostar: É uma tendência de um mercado que vai crescer muito.

Em breve farei um post falando um pouco mais sobre a harmonização de cervejas artesanais com pratos especiais, quem sabe até com a receita de "Sobrepaleta suína confitada, ao molho de caramelo de alho acompanhado de purê de batata doce cítrico", harmonizada com Franke Bier Red Ale. (hehehe)

Abraço e um brinde aos prazeres das cervejas e comidas verdadeiras. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O papel, o sucesso e os desafios da cerveja artesanal.

O amigo Elias Kuck esta cursando Agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Na cadeira de Engenharia de Alimentos a turma terá de fazer um trabalho sobre cerveja, que vai abordar desde o plantio dos insumos até o engarrafamento.
Também vão destacar as micro cervejarias brasileiras, seu papel e relatar o sucesso das cervejas artesanais.
O Elias perguntou se eu poderia colaborar dando minha opinião sobre o papel, o sucesso e os desafios.

Fiquei muito feliz especialmente por dois motivos:

1° - Por esse trabalho estar sendo desenvolvido na UFRGS. Isso mostra o quanto as micro cervejarias e as cervejas artesanais vem ganhando destaque.
Há poucos anos atrás era praticamente impossível encontrar cerveja artesanal para vender, quem diria ser tema de um trabalho na Universidade.
Talvez muitos da turma ainda não conheçam as cervejas artesanais, no mínimo vão ficar muito curiosas e vão levar os conhecimentos para mais pessoas.
Que lugar melhor para difundir conhecimento que uma turma de Universidade?

2° - Por ser lembrado pelo Elias para falar sobre o papel das Micro cervejarias, seu sucesso e desafios.
Faço a minha própria cerveja artesanal como hobby, sou membro da Associação de Cervejeiros Artesanais do Rio Grande do Sul (Acerva Gaúcha) e dos Cervejeiros do Vale do Rio Pardo (CerVale Rio Pardo).
Não sou dono de micro cervejaria, mas falo com conhecimento de quem é muito ligado ao movimento cervejeiro e acompanha a anos o mercado em todos os aspectos.
Tenho muitos amigos no ramo, tenho visitado e conhecido micro cervejarias em vários estados brasileiros. Com isso tenho contato cervejeiros e empresários que compartilham seus cases de sucesso, queixas, erros e acertos.

Achei que seria interessante dar minha opinião já fazendo um post no Blog e assim tornar a leitura disponível para quem mais tivesse interesse.

Para entender o sucesso das cervejas artesanais é preciso fazer uma pequena análise histórica do mercado cervejeiro mundial.

Em 1985 na música "Geração Coca-Cola" a banda Legião Urbana cantava que "quando nascemos fomos programados a receber" influências dos EUA.

A influência dos EUA no Brasil não foram apenas nos "enlatados", mas nas cervejas também.

Cervejaria clandestina sendo esvaziada.   Imagens Google

De 1920 a 1933 vigorou nos EUA a Lei Seca que proibia a fabricação, o comércio, o transporte, a exportação e a importação de bebidas alcoólicas.
A intenção era reduzir o consumo de álcool e acabar com as Empresas que produziam. O que se viu foi uma procura ainda maior por produtos de alto teor alcoólico. O surgimento de fábricas clandestinas controladas por bandidos, contrabandistas e gangsters, que travavam verdadeiras guerras sangrentas pelo poder.







Fiscais eliminando cerveja clandestina



A corrupção era galopante, não haviam fiscais suficientes e tudo virou um grande caos.





O combate ao consumo de bebidas alcoólicas não era exclusividade dos EUA. Entre o final do século XIX e começo do século XX, em diferentes partes do mundo vários movimentos organizados e eventos aconteciam.
Esses movimentos influenciaram a cerveja e muitas coisas que existem hoje, como por exemplo o surgimento dos Pubs.

Alemanha devastada na Segunda Guerra Mundial

É preciso destacar também a primeira grande guerra, onde a preocupação era não utilizar grãos para a produção de bebidas a fim de evitar a escassez.

Já na Segunda Guerra Mundial o problema foi a devastação da Europa e dos principais produtores e fornecedores de malte e lúpulos.






Nos EUA primeiro passo para o fim da Lei Seca foi liberar bebidas com até 4% de teor alcoólico.

Com o cenário descrito acima, para estar dentro da legalidade era preciso se adaptar.
Era preciso abandonar as cervejas Ale (preferidas até antes da Lei Seca) e produzir cervejas de baixa graduação alcoólica para uma população que ficou mais de uma década praticamente só tomando refrigerantes.

O paladar da população para cervejas complexas tinha acabado.

Além da escassez das matérias primas base da cerveja, o milho era abundante e passou, junto com arroz, a ser utilizados nas bebidas como alternativa barata para substituição de malte.

O resultado podemos chamar de Lite American Lager.

Um estilo de cerveja leve, aguada, sem sabores de malte ou lúpulo, com baixo teor alcoólico e que precisa ser consumida estupidamente gelada para mascarar sabores indesejados da bebida, mas que dentro do estilo esses sabores são permitidos.

Opa...alguém se familiarizou com o termo "estupidamente gelada"?

Pois bem, esse estilo foi implementado no Brasil.
Certamente não só por influência dos EUA, mas também por força e imposição da grande indústria que concorre igual e deslealmente com as pequenas. E sob um pretexto de ser uma cerveja refrescante para matar a sede, uma "cerveja adaptada ao clima tropical do Brasil".
Não vou entrar no quesito de que os famosos cereais não maltados são substitutos baratos e sem qualidade de malte, não vou entrar em detalhes de quantidade e qualidade de lúpulos,
na opção por outros estilos, nem dos diferentes micro-climas do extenso território brasileiro ou qualquer outro argumento que derrubaria facilmente essa teoria de "cerveja adaptada ao Brasil".

O fato é que até poucos anos a população brasileira só tinha acesso a um tipo de cerveja, a Lite American Lager.

Se pegarmos todas as marcas das cervejas tradicionais que estão disponíveis no mercado, praticamente todas são esse estilo. No rótulo até muitas trazem "Cerveja tipo Pilsen", mas estão muito, muito, muito longe de ser uma Pilsen de verdade a ponto de que nem seriam chamadas de cerveja na Alemanha.

Hoje estamos vivendo uma revolução cervejeira graças as cervejas artesanais.

Essa mesma revolução aconteceu nos EUA a mais de 20 anos e podemos dizer vamos nos inspirar no que já aconteceu por lá, onde o mercado de cervejas artesanais já chega a 20% de participação no mercado.

Também vamos fazer a nossa revolução cervejeira, e já começou!!!

É fantástico apresentar uma cerveja diferente para pessoas que só conhecem as tradicionais e dizem que a X é a melhor, ou que só toma Y, ou que bom é Z que é mais barata...


Linha de envase cerveja Crystal (Grupo Petrópolis) Rondonópolis - MT


Diga-se de passagem que dentro da proposta, as cervejas tradicionais tem qualidade, são bons no que fazem, possuem um controle de produção fantástico, alta tecnologia empregada, garantem o mesmo produto em diferentes fábricas e uma capilaridade de distribuição impressionante.

Mas pecam em se limitar em produzir basicamente apenas um estilo de cerveja.




As pessoas quase não acreditam quando digo que todas as cervejas tradicionais são o mesmo estilo, umas melhores, outras piores, mas todas iguais e que num teste cego com várias só com sorte acertariam uma ou duas.
Se surpreendem quando digo que existem mais de 100 estilos diferentes e eles só conhecem um.

Tem uma frase que diz que o que é bom é fácil acostumar-se.
Comer e beber bem certamente são uns dos maiores prazeres da vida.

As palavras chave são: variedade e qualidade!!

Eu diria que o principal motivo do sucesso das cervejas artesanais é justamente conseguir surpreender os consumidores nessa lacuna gigantesca que existe de as pessoas poderem conhecer um estilo diferente do que as tradicionais oferecem.


As pessoas se encantam com o sabor de uma Red Ale, se deslumbram pelo perfume de uma IPA, se surpreendem com o gosto de uma WitBier, se encantam com a sutileza de uma Kölsch ou até mesmo enchem a alma ao degustar uma Pilsen Puro Malte.

O sucesso está diretamente ligado a qualidade e a variedade das cervejas que as micro cervejarias brasileiras tem oferecido aos consumidores.

O Mercado de cerveja artesanal do Brasil, mesmo com uma história curta, já tem grande destaque internacional.
As cervejas brasileiras conquistaram inúmeras medalhas nos principais torneios do mundo.
Diversos cervejeiros consagrados mundialmente vieram para o Brasil fazer produções colaborativas com as micro cervejarias brasileiras e alguns cervejeiros do Brasil foram fazer o mesmo fora do país.

A papel das micro cervejarias nesse cenário é mais complexo:

É preciso fomentar a cultura cervejeira;
É preciso educar o consumidor, explicar para ele o que ele esta consumindo;
É preciso participar de eventos, de feiras e festivais;
É preciso dar palestras em faculdades;
É preciso criar eventos;
É preciso fazer parcerias com restaurantes e promover refeições orientadas e harmonizadas;
É preciso conversar na mesa entre amigos sobre cerveja;
É preciso apoiar e compartilhar conhecimento com o movimento Homebrew, que são os maiores difusores da cultura cervejeira;
É preciso incentivar o consumo moderado, mas com qualidade (Beba Menos Beba Melhor);
É preciso ter canais de comunicação com os consumidores;
É preciso abrir as cervejarias e prepara-las para receber visitantes;
É preciso descriminalizar a cerveja;

Ou seja, é uma infinidade de ações que é preciso fazer, muitas vezes gastando e sem retorno imediato.

Não adianta montar uma planta cervejeira, fazer alguma cerveja básica, um espaço para festa em meio a cervejaria e deu.

Com o boom das cervejas artesanais vão surgir muitos oportunistas e aventureiros achando que o negócio é uma maravilha.
O mercado vai cuidar de selecionar as que vão sobreviver ou não. E eu garanto: vai sobreviver aquelas que se preocupam com a qualidade e são engajadas com o mercado cervejeiro como um todo.
Já visitei algumas que se preocupam mais com a dupla sertaneja que vai tocar nas dependências da cervejaria do que com a qualidade das cervejas produzidas.

Em contra partida, para as que primam pela qualidade e estão engajadas na revolução cervejeira do Brasil, dispostas a fazer tudo que "É preciso..." e muito mais, tenho certeza que vão ter muito reconhecimento do mercado consumidor e vão se destacar.
Todo esse barulho que estamos vendo a cerveja artesanal fazer no mercado é apenas o começo, é a pontinha do iceberg.



Acima eu disse que descriminalizar a cerveja era um papel das micro cervejarias, mas vou mudar isso e passar para um desafio.

É desafio para as micro cervejarias descriminalizar a cerveja.

A cerveja  tem uma imagem nada positiva na sociedade.
Graças a campanhas publicitárias ela esta associada a consumo exagerado, mulher pelada, verão, praia e futebol.
Está associada a tomar em latinha e jogar a mesma em qualquer lugar, ou tomar long-neck no bico.

Imagine a seguinte situação:
Você chega num restaurante relativamente bom e diz que quer tomar uma cerveja, nem precisa pedir a carta de cervejas, o garçom nunca viu isso.
Nem se arrisque a perguntar se tem alguma cerveja na pressão, isso o garçom nunca ouviu falar.
Só com muita sorte, ou até milagre, você vai encontrar uma cerveja artesanal.
Normalmente vai ter que escolher uma que provavelmente esta "pagando" as cadeiras, mesas, geladeiras e fachada do restaurante. As grandes indústrias que determinam dessa forma quais marcas o restaurante poderá vender (contratos de exclusividade onde o dono do restaurante não se preocupa com os clientes).
O garçom vai trazer a cerveja num porta garrafa possivelmente todo mofado.
O copo talvez não esteja engordurado, mas talvez seja aqueles que parecem mais um pote de requeijão.
Provavelmente a cerveja não vai harmonizar com nenhum dos pratos oferecidos pelo restaurante, mas ninguém se importa com isso (nem o dono do restaurante nem o chef).
Mas com certeza ela vai estar estupidamente gelada.

Agora vamos imaginar outra situação:
Você chega no mesmo restaurante (bom) e diz que quer tomar vinho.
Possivelmente o garçom vai trazer a carta de vinhos. Você analisa a carta, escolhe o vinho e não se assusta com os preços de R$50, R$60, R$70 (ainda imagina "é o preço").
O garçom traz a garrafa, um pano cuidadosamente dobrado sobre o braço e as taças. Abre a garrafa com todo o cuidado, da a rolha para você cheirar, talvez você não entenda nada de vinho, mas cheira a rolha (talvez só descubra se o vinho estiver azedo com isso), mas mesmo assim cheira e sinaliza positivamente com a cabeça para o garçom. Ele enrola o pano na garrafa e serve uma pequena quantidade no seu copo para degustar (novamente talvez você não entenda), você da uma bela cheirada no copo, gira a taça e observa as bordas, toma um pequeno gole, alguns segundos se seguem e você sinaliza positivamente para o garçom dizendo "pode servir".
Que fantástico todo esse cerimonial né? Que respeito a bebida e a quem a produziu. E certamente você vai conseguir pedir um prato que vai harmonizar com o vinho.

A cerveja e seus vários estilos oferecem uma infinidade de possibilidades de harmonização. Desde os pratos de entrada, pratos principais e até com sobremesas.
Não quero agora travar uma batalha de cerveja x vinho (quem sabe em outro post futuramente hehe), mas a cerveja consumida com moderação traz inúmeros benefícios para a saúde, até mais que o vinho com quantidades superiores de antioxidantes, vitaminas e fibras.
Não quero esse cerimonial para tomar a cerveja, mas temos muito que aprender com os produtores de vinho, desde apresentação a toda a mística que envolve o produto.

A cerveja tem que ser consumida de forma diferente. Ao degustar uma cerveja devemos utilizar nossos 5 sentidos:

Audição - Ao escutarmos a som da garrafa abrindo e nesse momento já podemos avaliar o nível de carbonatação da garrafa.
Na Alemanha é comum até colocar o copo próximo ao ouvido para escutar a espuma e as bolhas de CO² se desprendendo do copo.

Tato - É o contato com a garrafa e com o poco para avaliar sua temperatura.

Visão - É importante visualizar o rótulo e ler as informações nele contido. Com a cerveja servida é hora de visualizar a formação e a duração da espuma, a cor da cerveja.

Olfato - Que é obrigatório analisar numa cerveja artesanal, nas tradicionais não precisa fazer isso (nem deve, as vezes não vai ser muito agradável).
Pelo olfato é possível identificar nuances na cerveja gerados através das leveduras, do malte, do lúpulo, especiarias, métodos de maturação, dentre outros. Mas vai de notas florais e perfumadas a frutas cítricas, bananas, ameixas, café, dentre inúmeros outros aromas.

Paladar - É o grande momento da cerveja artesanal. É tomar sentindo o gosto, é tomar pensando, é tomar percebendo sabores que chegam a ser surpreendentes.

Mas vamos continuar falando no desafio para as micro cervejarias.

Algumas pessoas defendem que o maior desafio agora é criar o estilo brasileiro de cerveja.
Que seria o estilo do Brasil, nossa carta de apresentação para o mundo. Talvez com ingredientes típicos brasileiros.

Eu discordo, antes disso o desafio é fazer as pessoas experimentarem a cerveja artesanal, conhecer novos estilos e saber o que estão tomando.
Não adianta termos o estilo brasileiro de cerveja se esse ficar restrito a uma pequena parcela da população que conhece cerveja.
É preciso que grande parte da população ao menos saiba que existem outros estilos, que saibam o que é uma Porter, APA, Weiss, Amber Ale, Barley Wine, Tripel, etc.

Cerca de 98% dos consumidores de cerveja no Brasil só consomem as cervejas tradicionais e o desafio é justamente fazer essa parcela da população ao menos experimentar as artesanais.


Mas o maior desafio das micro cervejarias hoje no Brasil é sobreviver, isso mesmo SOBREVIVER!!

O desafio é pleitar uma tributação diferenciada, mais apropriada e justa para as micro cervejarias que hoje são taxadas igual as grandes indústrias que possuem ramificações em várias partes do mundo, capital gigantesco e acionistas. As micro cervejarias são controladas geralmente por pequenos e até micro empresários.

Algumas cervejas artesanais chegam a ter 70% do custo em impostos.

O custo da produção é infinitamente maior que das cervejas tradicionais.
As micro cervejarias produzem uma variedade muito maior de estilos, onde se utilizam maltes com diferentes graus de torrefação para adquirir nuances de diferentes sabores e colorações.
O custo por litro produzido é muito maior.
Não utilizam produtos e aditivos químicos para baratear ou acelerar a produção.
O número de pessoas empregadas por litro produzido é maior que das grandes indústrias, onde a maior parte do processo é totalmente automatizado.
Utilizarem matéria prima de qualidade muito superior e mais caras e tem seu custo fracionado numa quantidade muito pequena de litros produzidos.
Ainda fomentam o turismo e a economia regional.

É uma concorrência desleal.

Em países desenvolvidos as micro cervejarias são taxadas de forma diferenciada e as cervejas custam em torno de 40 a 50% a mais que as tradicionais. No Brasil esse valor chega a ser dez vezes superior.
Um primeiro passo seria a inclusão das micro cervejarias no Simples Nacional, o que vem sendo discutido. Mas esbarra na burocracia brasileira, na disputa de poderes e nas ações de lobby disfarçado das grandes cervejarias (Um levantamento de um repórter da VEJA - SP comprovou que em 2010 as grandes indústrias doaram de forma legal quase R$20 milhões para políticos).

Voltando para a música da Legião Urbana:
"Depois de 20 anos na escola, não é difícil aprender, todas as manhas do seu jogo sujo".
Mesmo sofrendo com lobby, financiamento "legal" de políticos, bloqueio de pontos de venda e concorrência desleal as micro cervejarias vem ganhando espaço e destaque com a cerveja artesanal pela qualidade e pela variedade de estilos.
Isso é uma resposta do mercado que esta cansando da imposição das grandes indústrias e querem um produto diferenciado.

Aos amigos que tiveram coragem de empreender no negócio eu só posso dar meu apoio de todas as formas que consigo e dizer que continuem e acreditem.
Quando Steve Jobs quis contratar o CEO da Pepsi John Sculley, (a Apple ainda era uma Empresa minúscula comparada com a Pepsi).
Ele perguntou:

"Você quer passar o resto de sua vida vendendo água com açúcar ou quer mudar o mundo?"

Vocês estão mudando o mundo, vocês estão oferecendo aos consumidores um produto milenar, mas que nunca tiveram acesso.

"Somos os filhos da revolução" cervejeira que esta apenas começando.
"Vamos fazer nosso dever de casa", cervejas de qualidade, "e ai então vocês vão ver suas crianças derrubado reis".